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Filosofia  
       
 
 
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O perdão na filosofia
Mesmo no que se refere a tempos sombrios, como o Holocausto, será possível esquecer e perdoar?

POR GEORGIA AMITRANO

Como afirma Hannah Arendt, a "História conhece muitos períodos de tempos sombrios".

E, nestes tempos, muita coisa se obscurece e se torna dúbia. Tal ambigüidade e obscurecimento podem ser muito bem visualizados tanto no âmbito do público, quanto no cotidiano dos indivíduos. Afinal, viver em tempos sombrios faz muitas vezes que nos inclinemos em direção ao desprezo pelo mundo ou nos fechemos na ignorância, alienando-nos o máximo possível das coisas públicas. Este ignorar-se que aparece nos momentos nuviosos sugere uma espécie de tentativa de ultrapassagem, a qual, como afirma Arendt, emerge da busca por detrás das coisas, "como se o mundo fosse uma fachada por trás da qual as pessoas pudessem se esconder".

Pena de morte

Não é possível estabelecer uma pena correspondente ao Holocausto para que seja feita justiça e se conceda o perdão. Nem a pena de morte seria suficiente. Segundo Derrida, não há como punir o criminoso com uma punição proporcional ao seu crime. Isto porque, "diante do infinito, todas as grandezas finitas tendem a se igualar; de modo que o castigo torna-se algo quase indiferente"

É no contexto de tempos sombrios que a Segunda Grande Guerra brota. Com ela, alguns aspectos são salientados: se por um lado nos deparamos com um novo modo de encarar o mundo e a técnica, por outro, podemos afirmar que a Filosofia captura o cerne de seu objeto. Afinal, se toda Filosofia, como afirma Ernst Tugendhat, é uma Antropologia, então, o homem é o objeto da Filosofia. Mais precisamente o que entra em cena é a condição humana, o conceito de dignidade e a inclusão ou exclusão daqueles que merecem a valoração de humanos.

O Holocausto, assim, surge como o marco da minimização da condição humana e sobrelevação da técnica. O que se verifica, de fato, é que há uma mudança paradigmática pontuada tanto no contexto filosófico quanto jurídico. Se por um lado está a minimização da condição humana e, subseqüentemente, a perda da dignidade, por outro, como afirmara Albert Camus, instaura-se uma nova ordem jurídica, pautada em um "pensamento dito libertino [...], dos filósofos e dos juristas", na qual os burgueses, os cultos e os poderosos, seriam os únicos considerados capacitados para atender aos anseios das massas e de apontar para uma verdade unívoca acerca de quem seria ou não detentor do direito à vida digna.

Se, de fato, o esquecimento não pode coexistir com a violência e a coerção mentirosa e traiçoeira, resta-nos saber se há perdão

Com a dignidade humana abalada por uma quimera jurídico-científica, o mundo pereceu diante da intolerância para com o outro. No século XX, a intolerância ao outro, balizada pelo cientificismo da raça e pela 'força da lei' na exceção, começa a fazer um ruído que terminou emudecendo o mundo em campos de extermínio. Os indivíduos eliminados emergem como um fato evidente da 'barbárie contemporânea'. Esta nasce do espectro civilizatório que, enredado numa razão logística, tem por pano de fundo não o retrocesso, mas, antes, a exclusão da liberdade, a ratificação da desigualdade, o fim do espaço público e a minimização do próprio homem. Em outras palavras, o mal que se instaura com o Holocausto nazista nasce das ações cotidianas que 'desumanizam' e 'desmundializam' o indivíduo, dando-lhe 'imagens de inferno na terra'.

Este mal perpetrado pelos campos de extermínio, não somente os nazistas, despertou no pensamento contemporâneo um olhar crítico que se voltou contra a própria tradição filosófica. Camus, em O Homem Revoltado, afirma ter a Filosofia servido para tudo, inclusive para "transformar assassinos em juízes". Jean-Paul Sartre, diante do escárnio do humano no mundo do Holocausto, apontou ainda para o fato de que "quando os instrumentos estão quebrados e são inutilizáveis, quando os planos voam pelos ares e o esforço não tem sentido, o mundo aparece com um frescor infantil e terrível, suspenso sem rumo num vazio". Hannah Arendt disse que vivíamos "a banalização do mal".

Ora, com a ascensão do nacional-socialismo na Alemanha, em meados da década de 1930, verificamos um declínio dos projetos de cunho liberal no seio da Europa. Tal declínio principia uma era marcada pela mácula do autoritarismo e, além disso, assinalada por segregações.

Diante do fato de mais de oito milhões de pessoas perderam a dignidade e a vida em campos de concentração, notadamente preparados para matar em escala industrial, uma pergunta aparece, a saber: é possível o perdão ou o esquecimento?

REMEMORAÇÃO DO HOLOCAUSTO

Em novembro de 2005, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução instituindo 27 de janeiro como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. A data foi escolhida por ser o dia em que, em 1945, os soviéticos libertaram o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polônia. A resolução, proposta por Israel, foi co-patrocinada por outros 104 países e aprovada por consenso (sem necessidade de votação). O documento pede aos Estados- membros que criem programas de educação para enfatizar os horrores do genocídio e que incentivem a sociedade civil a promover a memória do Holocausto, negando que seja reduzido a um evento histórico. A data é uma homenagem aos judeus e às outras vítimas da exterminação nazista.

 

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