Apenas um garoto de 26 anos POR LÚCIO PACKTER
LÚCIO PACKTER
é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS), é coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Universidade Moura Lacerda, em Ribeirão Preto (SP), e da Faculdade de Filosofia São Miguel Arcanjo, em Anápolis (GO). luciopackter@uol.com.br.
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Cada um viaja da forma que vive. Há aqueles que não conseguem se desvencilhar, e mesmo longe, querem estar "de olho" em tudo |
O futuro está lá, não é nítido, será construído pelo caminho. E o caminho é feito de momentos; os bons momentos são os que acontecem com a pessoa certa no lugar certo. É quase um estado de espírito. Casamento e filhos são relacionados a alguém para ficar junto depois dos 30, por aí. Depende, porque o futuro está em aberto.Vida social é importante, contatos, nada a ver com questões de trabalho, de família. A explicação é que contatos são importantes porque são contatos. O capitalismo é bom, o que não é bom é o governo. A política é o problema, não a economia, propriamente. A idéia é que a política influencia a economia.
Não interessa muito se a pessoa é católica, evangélica, taoísta, o que está em questão é a energia que a pessoa passa. A ênfase é no que a pessoa mentaliza e passa, não a ideologia.Sobre comida, é saudável evitar porcaria e isso está ligado a exercício, a boas idéias, a bons papos, coisas produtivas. Saudável é carboidrato, chocolate, carne, ainda que possa passar sem isso.Se um marciano perguntasse o que diferencia um garoto de 26 anos das outras dez mil idades que encontramos em nossa cidade, a resposta é simples: estar sempre em busca de algo novo, não daquilo que sempre existiu e se esparrama; estar sempre ligado em novidades. Novidade não é Felipe Massa, novidade é o que faz Felipe Massa ser novidade.
Um cara de 26 anos lê Martha Medeiros e se tiver alguém por perto pode acabar lendo em voz alta, desde que possa ler e comentar.O vocabulário é razoável, mas geralmente monossilábico, com termos e expressões curtas que dizem quase tudo. Subitamente, no meio de um assunto fatídico, surge um "só!".Uma coisa ridícula: exibicionismo. Uma esperança; eis algo que demanda tempo e gera respostas vagas como "o autoconhecimento coletivo".Este é o resumo, mais ou menos exato, de uma conversa com um garoto de 26 anos.
Viajando e Vivendo...
Deixar a carteira em cima da mesa, lembrar disso 30 segundos depois e retornar da porta da cantina para nunca mais encontrar a carteira é algo que pode acontecer em viagem. Perder o avião pode acontecer. Comer algo perfeitamente recomendável e ficar de molho dois dias tomando soro... pode acontecer. Emprestar 200 euros para um amigo, que na viagem se tornou seu irmão, e, dados os vapores idílicos da jornada, achar que os terá de volta no Brasil, pode acontecer. Em meio a uma visita a um museu descobrir que todos já foram e ficar apavorado com aqueles bichos empalhados, isso pode acontecer. Brigar com um taxista que está coberto de razão, enquanto estamos errados, mas sustentar que estamos certos, isso também acontece.
E a mala que foi parar em Bangladesh? E a água quente que foi faltar bem no seu quarto? E as cinco horas que o avião atrasou e o seu remédio ficou na mala? E a sua amiga que ia junto, mas desistiu em cima da hora... logo ela que foi quem convenceu você a viajar...Além disso, alguns que embarcam, realmente, não viajam. Vão apenas passear de avião e levar tudo o que vivem aqui para o lado de lá do mar. Isso porque tem gente que não se desconecta. Em Atenas fica ligando para o Brasil para saber se a sobrinha passou no vestibular de Arquitetura, enquanto a própria sobrinha nem dá bola para isso. No fundo, o que a sobrinha queria mesmo era viajar para a Grécia.
Deixar para resolver dez dias antes da partida quem ficará cuidando da casa, do cachorro, do jardim e da correspondência é um risco de entrar estressado no vôo e incomodar todo o mundo por bobagem como "de quem é a vez de usar o banheiro?".Detalhes como mala (com rodinha, sempre!), um livrinho básico para se proteger dos chatos, MP3 para a pessoa se proteger dela mesma quando começar a cismar que uma turbina está mais barulhenta que a outra coisa que nem mesmo o piloto sabe dizer -, ficar indeciso porque alguém enfermo em sua família precisa muito de você, enfim... Detalhes facilmente deixam de ser detalhes quando tratamos de uma longa viagem.
De um modo geral, mas não é uma regra, cada um viaja de modo muito semelhante ao modo como vive. Por isso, é natural que em viagens os manuais fiquem apenas como lembrança vaga do tempo que foi perdido com eles.O roteiro de viagens para a vida que um filósofo clínico observa em uma pessoa tem muito a ver com a historicidade desta.
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