Hannh Arendt: o criativo, o heróico e o hedonista na arte atual Este texto é uma adaptação de capítulo da tese A Interpretação da Imagem: subsídios para o ensino de arte (ECA/USP - 2005), no prelo pela Editora Universidade de Brasília
POR TEREZINHA LOSADA
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A produção artística contemporânea vista sob o ponto de vista político, de acordo com a releitura da teoria sobre a condição humana da pensadora alemã |
Devido a sua visionária atualidade, o cinqüentenário da obra A condição humana vem promovendo um amplo resgate do pensamento de Hannah Arendt. As críticas ali feitas sobre a modernidade antecedem em 20 anos a publicação da , de Lyotard (1979), obra considerada o estopim dos debates sobre a pósmodernidade, especialmente devido às réplicas de Habermas em defesa da razão iluminista.
Nem iluminista, nem pós-modernista, as considerações de Arendt já sinalizavam as principais questões relativas ao contexto contemporâneo, tais como a crise das utopias, a banalização dos valores sociais e políticos e a defesa da pluralidade humana. Segundo Arendt, (1991:15), "todos os aspectos da condição humana têm relação com a política, mas essa pluralidade é especificamente a condição (...) de toda vida política".
Apesar de nunca ter escrito uma obra específica sobre a arte, o fazer artístico permeia muitas de suas reflexões. Este ensaio faz uma livre apropriação das categorias teóricas de Arendt para discutir a relação entre arte e política, divisando os conceitos de modernismo, vanguarda e pós-modernismo.
Em A condição humana, Arendt identifica três atividades que constituem a malha da vita activa: ação, trabalho e labor. A ação, com o complemento necessário do discurso, nada produz para o consumo ou para o uso sendo a mais efêmera daquelas atividades. Ela é a esfera política da interação social, (1991:106) "sua realidade depende inteiramente da pluralidade humana, da presença constante de outros que possam ver e ouvir e, portanto, cuja existência possamos atestar".
Terezinha Losada é artista plástica e professora do Instituto de Artes da Universidade de Brasília (IdA/ UnB).
Trechos do Manifesto futurista, de Folippo Tommaso Marinetti
1. Nós pretendemos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e a intrepidez.
2. coragem, audácia e revolta serão elementos essenciais da nossa poesia.
3. Desde então, a literatura exaltou uma imobilidade pesarosa, êxtase e sono. Nós pretendemos exaltar a ação agressiva, uma insônia febril, o progresso do corredor, o salto mortal, o soco e tapa.
4. Nós afirmamos que a magnificência do mundo foi enriquecida por uma nova beleza: a beleza da velocidade. Um carro de corrida cuja capota é adornada com grandes canos, como serpentes de respirações explosivas de um carro bravejante que parece correr na metralha, é mais bonito do que a Vitória da samotrácia. |
Já o trabalho constrói o mundo, tornando-o mais útil e belo. O homo faber, inventor de ferramentas e utensílios, é o autor de toda artificialidade e mundanidade. A durabilidade dos objetos de uso, em oposição à fugacidade dos bens de consumo, confere a dimensão cultural da humanidade, pois (1991:150) "sem um mundo interposto entre os homens e a natureza, haveria eterno movimento, mas não objetividade". Por fim, o labor, ou a atividade do animal laborans, vincula-se ao reino da necessidade e ao processo biológico de manutenção da vida, a fim de torná-la mais fácil e longa. Seus produtos não têm nenhuma durabilidade, eles são consumidos quase que imediatamente após sua produção em um processo contínuo e cíclico.
Das relações entre a ação e o trabalho, Arendt articula o conceito de mundo como construção cultural e, nesse bojo, o conceito de arte, pois, na sua utilidade e durabilidade, os objetos fabricados pelo trabalho representam nosso modo de viver. Entre eles, chamamos de arte os objetos que normalmente não têm outra função ou utilidade do que fazer essas representações dos valores e experiências humanas. Assim, para Hannah Arendt, a arte é a reificação, ou seja, a materialização da efêmera ação humana, transformando-a em algo tangível, que pode ser lembrado e comentado no seu próprio tempo e pelas futuras gerações.
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