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Filosofia  
       
 
 
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EPISTEMOLOGIA
Mente, corpo, imaginação e memória em Espinosa
Para o filósofo, a mente imagina as modificações do corpo que ocorrem a todo momento - as percebe e concebe idéias a respeito. Aa memória seria o encadeamento dessas imagens produzidas

Por Amauri Ferreira

ilusões da vida, por George FfrederiIckWatts, 1849
A ordem é uma ilusão construída pela mente. A vida humana torna-se pesada quando se tenta, a todo momento, corrigir a falta dessa ordem imaginária

Distinção real entre o corpo e a mente. Este é um dos pilares do pensamento de Baruch de Espinosa (1632-1677), a partir do qual podemos dizer que não é possível estabelecer uma relação de causalidade entre ambos. Há, na verdade, uma conexão necessária entre os corpos, que somente produz corpos, assim como há também um encadeamento entre as idéias, que somente produz idéias. Para Espinosa, um corpo não produz uma mente ou uma idéia, assim como uma mente não produz um corpo. Mas, primeiramente, toda idéia é idéia de alguma coisa existente em ato, e não uma idéia de algo que não existe: “O que, primeiramente, constitui o ser atual da mente humana não é senão a idéia de uma coisa singular existente em ato” (Ética, 2, Prop. 11).

Seguindo esta idéia, a mente humana tem uma potência para conhecer o objeto ao qual está unida, que é o corpo, uma coisa singular que sofre modificações produzidas nos encontros com outros corpos. Nesse primeiro momento, não há nenhuma outra coisa singular existente em ato que a nossa mente possa perceber alem do próprio corpo. Portanto, a mente humana é a idéia do corpo: “Segue-se disso que o homem consiste de uma mente e de um corpo, e que o corpo humano existe tal como o sentimos”. (Ética, 2, Prop. 13, cor.).

O corpo sempre sofre afecções — ou modificações — nas misturas com outros corpos e a mente produz idéias dessas afecções. Porém, Espinosa faz uma observação importante a respeito da união da mente e do corpo: “Ninguém, entretanto, poderá compreender essa união adequadamente, ou seja, distintamente, se não conhecer, antes, adequadamente, a natureza de nosso corpo.” (Ética, 2, Prop.13, esc.). Isso quer dizer que o corpo tem uma grande importância nas idéias que a mente produz, já que, como o corpo sofre afecções, a mente as percebe. Mas, é importante ressaltar que o corpo e a mente são autônomos, ou seja, não há superioridade de um com relação ao outro. Apenas há superioridade de uma mente com relação a outra mente e de um corpo com relação a outro corpo.

Todo corpo e toda mente são perfeitos. O que faz uma mente ser mais perfeita do que outra é a capacidade de uma produzir mais idéias do que a outra

Espinosa associa a memória ao encadeamento das imagens que a mente forma das modificações que ocorrem no corpo. Henri-Louis Bergson, filósofo francês, também relaciona memória, imagens e corpo. Na obra Matière et Mémoire (1896), escreve: “Tudo deve se passar portanto como se uma memória independente juntasse imagens ao longo do tempo à medida que elas se produzem, e como se nosso corpo, com aquilo que o cerca, não fosse mais que uma dessas imagens” (p. 83)

Essa superioridade se define quando a potência de modificação ou transformação deste corpo (desde que não perca a sua natureza, ou seja, que não se destrua) for maior do que um outro corpo. E uma mente é superior a outra mente porque produz mais idéias, em razão de seu corpo ter uma maior capacidade de ser modificado. Diz Espinosa: “[...] uma idéia é superior a outra e contém mais realidade do que a outra, à medida que o objeto de uma é superior ao objeto da outra e contém mais realidade do que o objeto da outra. E, por isso, para determinar em quê a mente humana difere das outras e em quê lhes é superior, é necessário que conheçamos, como dissemos, a natureza de seu objeto, isto é, a natureza do corpo humano.” (Ética, 2, Prop. 13, esc.). Superioridade, para Espinosa, é sinônimo de maior perfeição. Todo corpo e toda mente são perfeitos, mas o que faz uma mente ser mais perfeita do que outra mente é a capacidade de uma produzir mais idéias do que a outra. Dessa forma, a mente mais perfeita sempre corresponde a um corpo que é mais modificado do que outro corpo: “[...] quanto mais um corpo é capaz, em comparação com outros, de agir simultaneamente sobre um número maior de coisas, ou de padecer simultaneamente de um número maior de coisas (1), tanto mais a sua mente é capaz, em comparação com outras, de perceber, simultaneamente, um número maior de coisas. [...] E quanto mais ações de um corpo de pendem apenas dele próprio, e quanto menos outros corpos cooperam com ele no agir, tanto mais sua mente é capaz de compreender distintamente. É por esses critérios que podemos reconhecer a superioridade de uma mente sobre as outras...” (Ética, 2, Prop. 13, esc.). Portanto, há total correspondência entre a mente e o corpo: uma mente ativa corresponde a um corpo ativo e uma mente passiva corresponde a um corpo passivo. É impossível haver uma mente ativa e um corpo passivo e vice-versa.

Contato modificador

Os corpos distinguem-se entre si pelo movimento e pelo repouso. Um corpo em movimento será determinado ao repouso quando encontrar um outro corpo que o determine a isso; um corpo estará em repouso até encontrar um outro corpo que o determine ao movimento; um corpo em movimento altera a sua relação de movimento quando se choca com um outro corpo, etc.: “[...] um só e mesmo corpo, em razão da diferença de natureza dos corpos que o movem, é movido de diferentes maneiras, e, inversamente, corpos diferentes são movidos de diferentes maneiras por um só e mesmo corpo.” (Ética, 2, Prop. 13, axioma 1). Espinosa quer nos dizer que todos os corpos têm suas relações de movimento e repouso alteradas nos encontros com outros corpos, pois qualquer corpo sempre está em contato com outros corpos menores, maiores ou de diferentes naturezas. As partes do nosso corpo sempre têm relações de movimento alteradas nas misturas que elas estabelecem com as partes dos outros corpos. Isto quer dizer que as idéias que a nossa mente produz são sempre idéias dessas afecções do corpo, isto é, são sempre idéias inéditas e singulares, já que os encontros de corpos sempre se dão de modo singular e inédito.

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