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Schopenhauer: O impulso cego da vontade
A concepção metafísica da Vontade, do filósofo alemão, antecipa importantes teses da Psicanálise e tem a sua influência reconhecida por Freud

Por Richard Simanke

"Aqui, o psíquico está à mercê da quantidade e, com isso, é gerado, no interior do sistema, o impulso que sustenta toda a atividade psíquica. Tomamos conhecimento desse poder como a vontade, o derivado das pulsões."
Projeto de uma psicologia, Sigmund Freud (1895)

Prosseguindo na proposta desta série de ilustrar, se não o conceito plenamente formulado, ao menos a intuição do inconsciente no itinerário científico e filosófico que precede e, depois, ultrapassa Freud, a referência a Schopenhauer é, certamente, um ponto de parada obrigatório. É verdade que Schopenhauer não emprega o termo "inconsciente" na sua forma substantiva - não fala, portanto, de "o inconsciente". Não utiliza, assim, o conceito naquela que Freud denominou a sua acepção "sistemática", isto é, como um sistema psíquico dotado de leis próprias de funcionamento. Freud considerava esse o sentido mais importante do termo, aquele a respeito do qual a Psicanálise poderia reivindicar maior originalidade. Será um seguidor de Schopenhauer - o filósofo Eduard von Hartmann hg - o primeiro a empregar essa forma substantiva e sistemática do conceito, embora ainda no contexto de uma formulação metafísica do inconsciente. Como menciona Paul-Laurent Assoun, é von Hartmann "quem irá transformar o inconsciente de predicado em sujeito".

Contudo, já com Schopenhauer, culmina aquilo que Ernst Cassirer chamava de "atitude voluntarista", a qual inverte a perspectiva que se poderia encontrar em uma Filosofia ou em uma Psicologia de inspiração cartesiana. Nestas, a representação - ou seja, o pensamento do eu soberano - apareceria sempre como a causa da Vontade, por exemplo, como uma idéia da meta a ser alcançada, do alvo visado pelo querer. Com Schopenhauer e com aqueles que o precederam e que instituíram essa atitude (a tradição que vai de Locke a Condillac), ao contrário, seria a vontade que, num certo sentido, se apresentaria como a "causa" da representação, do conhecimento e do próprio pensamento racional, que não seriam senão suas manifestações mais tardias. Aqui é necessária uma ressalva, porque Schopenhauer afirma textualmente que "a Vontade, porém, jamais é causa".

Acervo Ciência & Vida
Antes de Freud elaborar a teoria do inconsciente, Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão do século XIX, já percorria caminho neste sentido ao reconhecer a preponderância da vontade

Essa afirmação deve-se ao fato de que ele tem em mente a causalidade concebida em termos kantianos, isto é, como uma maneira do entendimento apreender as relações entre os fenômenos, e que opera, portanto, segundo o "princípio de razão", de cuja crítica Schopenhauer se ocupa desde seus primeiros trabalhos.

Com essa mudança de atitude, seria possível, em princípio, superar não apenas o isolamento subjetivo do homem cartesiano (o problema do solipsismo mencionado no artigo anterior. Veja o artigo As razões do inconsciente na edição 27, mas também - e, talvez, principalmente - a restrição do conhecimento ao domínio dos fenômenos impostos por Kant. Para Schopenhauer, se Kant tinha concluído que coisas em si mesmas seriam incognoscíveis, era por ter atribuído um excessivo privilégio à razão. Ao contrário, o que se ofereceria como objeto imediato do conhecimento ou da consciência que o ser humano pode ter de si mesmo é que ele existe essencialmente enquanto inquietude, esforço, apetite, movimento de um querer em direção ao que é desejado, em uma palavra, enquanto Vontade. A partir daí, tomando como ponto de partida a analogia da vontade que move a ação humana, a reflexão do filósofo constrói toda uma Metafísica na qual a Vontade surge como a realidade fundamental da qual tudo o mais é fenômeno ou manifestação; como a verdadeira coisa-em-si, portanto, mas não mais inteiramente inacessível ao conhecimento. Freud, que considerava os processos inconscientes como o "psíquico em si", distinto de sua manifestação fenomênica na consciência, não deixa de soar um tanto schopenhaueriano quando, em seu artigo O inconsciente (1915) observa: "Como o físico, o psíquico não é necessariamente na realidade o que ele parece ser para nós. Devemos nos alegrar em saber, no entanto, que a correção da percepção interna acaba não oferecendo dificuldades tão grandes quanto a correção da percepção externa - de que os objetos internos são menos incognoscíveis que o mundo exterior".

[ Schopenhauer constrói toda uma Metafísica na qual a Vontade surge como a realidade fundamental da qual tudo o mais é fenômeno ou manifestação ]

O mundo como Vontade precederia e condicionaria, assim, o mundo como Representação (conforme o título da opus magna de Schopenhauer, O mundo como vontade e representação, publicada em 1819). O impulso da Vontade estaria na origem de um processo de individuação e de objetivação (no sentido de constituição e diferenciação dos objetos no mundo), que progrediria da matéria primordial para a vida elementar e, daí, para os organismos superiores e, finalmente, para a consciência. Apenas nas camadas mais tardias e elevadas desse processo de objetivação da Vontade, as necessidades surgidas ao longo do próprio processo evolutivo dariam margem ao surgimento da Representação e, com ela, da possibilidade da apreensão consciente do mundo, do corpo e do próprio sujeito do pensamento.

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