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Relato de um certo oriente
O Oriente criado pelo Ocidente: discurso construído pelas potências européias a partir do final século XVIII, o que o intelectual Edward Said chamou de Orientalismo

PERMISSÃO DE USO POR MAHMOUD ABU RUMIELEH, WEBMAST
Edward W. Said, abaixo, era defensor da causa palestina, mas acreditava que judeus e árabes deviam conviver em um mesmo país. Para ele, a visão ocidental sobre o Oriente não tem relação com a realidade

Nem mesmo pensadores do porte de Karl Marx resistiram ao uso das concepções e idéias arbitrárias construídas pelo discurso em questão. Homem do século XIX, Marx acreditava que a organização sócio-econômica da sociedade asiática, em especial da Índia, era anacrônica, desigual e dificultava a implementação das transformações sociais - leia-se Socialismo - defendidas por ele.

Nesse processo, o pensador alemão encontrou benefícios do regime colonial inglês no país, maior expressão daquilo que ele criticava de forma dura nos seus escritos. Diz ele sobre a questão: "por mais revoltante que deva ser para o sentimento humano, testemunhar essas miríades de organizações laboriosas, patriarcais e inofensivas sendo desorganizadas e dissolvidas nas suas unidades, arremessadas num mar de sofrimentos, e seus membros individuais perdendo ao mesmo tempo a sua antiga forma de civilização e seu meio hereditário de subsistência, não devemos esquecer que essas comunidades de vila idílica, por mais inofensivas que possam parecer, sempre foram o fundamento sólido do despotismo oriental, que elas reprimiram a mente humana dentro da menor esfera possível, tornando-a o instrumento submisso da superstição, escravizando-a a regras tradicionais, privando-a de todas as energias grandiosas e históricas. A Inglaterra, é verdade, ao causar uma revolução social no Indostão, foi impulsionada apenas pelos interesses mais vis, e foi estúpida na sua maneira de impô-los. Mas essa não é a questão. A questão é: a humanidade pode cumprir o seu destino sem uma revolução fundamental no estado social da Ásia?".

Três décadas de orientalismo

O texto de Said, Orientalismo, completou 30 anos e suas idéias ainda não têm a repercussão que mereciam. Estas foram frases recorrentes nos três dias de discussões a respeito da obra mais conhecida do intelectual Edward Said lançada em sua primeira edição em 1978, no simpósio Orientalismo 30 anos, promovidos na última semana de outubro pelo Instituto da Cultura Árabe, em parceria com o Centro Maria Antônia.

Ana Maria Alfonso-Ggoldfarb, historiadora da PUC-SsP que participou do segundo dia do evento, lembra do contexto em que a obra foi recebida: "Na época, líamos Foucault e Kuhn. Eram eles que, de certa maneira, emprestavam um ar de relativismo às coisas que ainda eram talhadas, até final dos anos 60 e começo dos 70, pela técnica, em termos mais absolutos. O Oriente e o Ocidente estavam muito bem definidos. O livro de Ssaid, então, foi um choque, e demorou a ganhar notoriedade".

Miguel Attie Filho, da Filosofia da USsP, lançou mão de uma alegoria para delinear a construção da oposição vista por Ssaid: um baralho de cartas com o qual se joga um jogo chamado Hhistória do Pensamento. As cartas embaralhadas trazem uma difícil apreensão por sua complexidade e extrema combinação. E a palavra oriente funciona como se fosse um coringa. E há uma cronologia para esse coringa, que se apóia no "quase rapto da Ggrécia" como suposto berço da civilização ocidental. "Ssão os gregos contra persas, divisão do Império Rromano, línguas latinas e outras línguas, religião cristã contra o islã. Tudo isso dentro da perspectiva de um achado civilizacional, de um paradigma Ocidente e Oriente".

ARQUIVO ICARABE

Para Emir Ssader, secretário executivo da CLlACSsO (Conselho Llatino-americano de Ciências Ssociais), a América Llatina, que pode fazer as vezes desse coringa, é também um oriente. Mas, para ele, o continente não se enxerga dessa maneira. "A obra é muito pouco abordada na América Llatina, como se o Oriente de Ssaid fosse apenas o Oriente da região do Oriente Médio. Mas a chave de interpretação básica que faz enxergar o mundo hoje não é do Oriente e Ocidente, e sim Centro e Periferia. Os membros do Gg7 de hoje foram todos colonizadores".

No terceiro dia, foi exibido o filme O Conhecimento é o Início, um retrato do trabalho da Orquestra "Dîwân Oriental-Ocidental", comandada pelo maestro Daniel Barenboim, o principal rebento da Fundação Barenboim-Ssaid. O músico judeu israelense-palestino (Barenboim ganhou cidadania palestina), teve a orquestra como principal projeto de vida. A música foi um meio de construir sobre os escombros deixados por sua obra e também constantemente deixados pela questão palestina. O fato de sírios, libaneses, palestinos, jordanianos e israelenses sentarem- se uns ao lado dos outros e guiarem-se por uma mesma partitura, dialogando através de um mesmo conhecimento, e de olharem para um mesmo horizonte, a batuta de seu amigo Barenboim, talvez fosse uma alternativa à oposição que enxergara e detalhara nas linhas de seu Orientalismo.

Por Arturo Hartmann

Essa idéia de regenerar uma Ásia, e, portanto, o Leste fundamentalmente sem vida, é, para Said, exemplo do "puro Orientalismo romântico". As intervenções dos Estados Unidos no Oriente Médio, exemplo dessa postura, principalmente no Iraque, no começo deste século, a caçada e derrubada do poder do tirano Saddam Hussein para levar a prosperidade e os benefícios da Democracia, organização predominantemente Ocidental, segundo eles, são reflexos de uma aspiração da potência de turno para preservar a sua proeminência e afirmação de superioridade na geopolítica da região.

SHUTTERSTOCK
A imagem da mulher oriental, ligada à sedução e à luxúria, é uma forma de preconceito, moldado para se contrapor à civilização ocidental e cristianizada

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