Relato de um certo oriente O Oriente criado pelo Ocidente: discurso construído pelas potências européias a partir do final século XVIII, o que o intelectual Edward Said chamou de Orientalismo
A metáfora pode não ser boa, mas é ilustrativa e mimese do argumento subjacente ao ensaio Orientalismo - o Oriente como invenção do Ocidente, do palestino Edward W. Said (1932-2006), marco divisor no estudo das relações sócio-culturais leste-oeste mundiais. O encantador de serpentes, segundo a sua vontade e habilidade, faz a flauta soprar o vento da melodia para levantar a víbora escondida, que aparece cambaleante e imprevisível para o público que assiste ao espetáculo.
O Ocidente criou o Oriente dessa maneira, forjando uma alteridade perversa e desigual. A criação da imagem do outro, dentro do Orientalismo, é também a afirmação da superioridade do mundo ocidental sobre o oriental, contrária a uma visão humanística que vai além da coerção e constrói um tipo de erudição não dominadora.
O texto, publicado pela primeira vez em 1978, e que hoje conta com várias dezenas de edições e traduções em muitas línguas, voltou a ter força, porém fora do ambiente acadêmico, após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 contra as torres gêmeas do World Trade Center de Nova Iorque, nos Estados Unidos, e o desenrolar daquele evento.
Os dois aviões que atingiram as imponentes construções, símbolo do poderio da metrópole estadunidense, não rasgaram somente estruturas metálicas. Abriram, também, um corte profundo, cuja ferida nunca cicatrizou, e que data da expansão islâmica rumo à Europa, em que o êxito maior foi a conquista da Península Ibérica, no ano de 711, e a reação furiosa dos cruzados.
 |
"Falar de Orientalismo, portanto, é falar principalmente, embora não exclusivamente, de um empreendimento cultural britânico e francês, um projeto cujas dimensões incluem áreas tão díspares como a própria imaginação, toda a Índia e o Levante, os textos bíblicos e as terras bíblicas, o comércio de especiarias, os exércitos coloniais e uma longa tradição de administradores, um formidável corpo de eruditos, inúmeros 'especialistas' e 'auxiliares' orientais, um professorado oriental, um arranjo complexo de idéias 'orientais' (o despotismo oriental, o esplendor oriental, a crueldade, a sensualidade), muitas seitas, filosofias e sabedorias orientais domesticadas para o uso europeu local - a lista pode se estender mais ou menos indefinidamente", explica Said.
"A verdadeira riqueza de um homem é o bem que ele faz neste mundo" MAOMÉ
Desde este ponto de vista, portanto, o Orientalismo é um discurso criado pelas potências européias, principalmente a partir do final do século XVIII - e que se desenvolveu e se estabeleceu com mais consistência no século XIX, para se apropriar da parte Leste do globo simbolicamente.
É, para usar os termos do francês Pierre Bourdieu, nesse sentido, também, um ato de violência simbólica porque transforma um fato arbitrário, nesse caso a premissa de considerar os orientais menos cultos e desenvolvidos, em algo natural. O objetivo dessa empresa não seria outro se não a dominação.
Segundo o filósofo renascentista italiano Giambattista Vico, são os homens que fazem a sua história, e que só podem conhecer o que eles mesmos fizeram. Como ficaria o homem oriental, em especial o árabe, cuja religião é o Islamismo, foco da análise no ensaio em questão, se ele nem ao menos foi ator da criação das fronteiras que separam as diversas nações que o abriga? O que diria então da sua história, dos seus valores e características dentro de uma linha de pensamento orientalista? A figura do árabe com feição fechada e um terrorista em potencial hoje, difundida pelos meios de comunicação, é o árabe excêntrico, extremamente sensual, cruel, despótico e pouco racional do passado. Em suma, caricaturas.
Sendo um crítico literário, Said vai se utilizar de exemplos do mundo das letras, da literatura, para exemplificar o tipo de relação estabelecida entre esses dois mundos que, embora houvesse tensão, se atraíam mutuamente.

Além da própria noção de generalização empregada para designar um universo grande, extenso e disforme, caracterizado por muitas diferenças e idiossincrasias, sob um termo único, há em geral uma outra peculiaridade, esescreve Said. "Como é transformado num objeto geral, todo o Oriente pode servir como ilustração de uma forma particular de excentricidade. Embora o Oriente individual não possa abalar ou perturbar as categorias gerais que criam o sentido de sua estranheza, ainda assim essa sua estranheza pode ser desfrutada em si mesma", analisa.
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | 4 | Próxima >> |