Ensaios em filosofia clínica Por Lúcio Packter
As flores da Inglaterra - declutterer
Ao chegar a Londres e ao sul da Inglaterra neste início de outono fui a uma casa de telefonia para colocar uma pequena placa, pagar uma taxa de 25 libras, e ter meu pequeno computador pessoal conectado à Internet. O rapaz que me atendeu explicou o funcionamento, tudo simples e rápido.
À saída, notei em um monitor o que me pareceu o final de uma matéria sobre um tipo de serviço que não conhecia: declutterer. Trata-se de um profissional que o cidadão pode contratar para colocar em ordem os armários, o escritório, os utensílios, as ferramentas na garagem, a cozinha, a casa inteira. Ele organizará, colocará fora, e talvez indicará outras medidas para aqueles casacos que foram guardados há anos e que são usados apenas para ocupar o armário, ou para a mesinha que está na cozinha e que ficaria melhor como mesa de passar roupas lá no fundo da despensa, próxima aos mantimentos.
No consultório, fazemos inúmeras vezes isso em um dispositivo que denominamos autogenia: a organização dos elementos internos de uma estrutura do pensamento.
Pois ao sair da casa de telefonia, notei que as folhas das árvores estavam no pleno verdor nestes dias de outono; os canteiros estavam em ordem, as flores não superavam os limites dos canteiros, as pétalas devidamente arrumadas nos caules. Passou-me um pensamento de quando, em algumas semanas, as folhas se revestirem de tons dourados, marrons, castanhos e encherem as calçadas, os parques, os bancos de madeira com uma desarrumação lindíssima. Lembrei-me que muitas questões existenciais ganham seus melhores movimentos e arranjos na bagunça. A desorganização é o requisito para que algumas coisas funcionem. E isso não é uma indicação de que deve ser de um modo e não de outro, é claro. É apenas um comentário de uma idéia que me passou.
O minuto de 120 segundos
Tudo na vida de Natália aconteceu bem depois de acontecer com todo mundo. Ela andou, falou, escreveu depois. Foi para a escola depois. Fez a primeira comunhão depois. Debutou com quase 17 anos. Natália não tinha isso como problema. Mesmo mais tarde, quando várias pessoas lhe disseram que isso era um problema, ela não acreditou e seguiu a vida como era para ser. Natália perdia o trem para Madrid, atrasava no trabalho, chegava tarde aos encontros, sua menstruação vinha sempre dias depois.
Seu bebê nasceu com nove meses e meio, pois ela casou com 35 anos (disse-lhe a mãe). Mas outros deram outras explicações porque com 35 anos ela ainda era uma adolescente, já que a idade adulta demorou a chegar.
Natália entendia as coisas com atraso, ria depois dos outros. Chorava suas perdas um ano mais tarde. Nada que pudesse ser feito amanhã seria realizado hoje e tudo o que pudesse esperar para envelhecer um pouco esperaria.
A melhor comida é aquela do outro dia, o melhor amor, a compreensão sobre algo, o inverno, mesmo as ansiedades nunca são as mesmas se nos atrasarmos um pouquinho em nossas angústias. Assim pensava Natália.
Por funcionar ao contrário de muitas pessoas de nossa época, com as pressas, as correrias, os relógios com os minutos curtos, Natália viveu sua vida de outro modo. Desenvolveu lemas e pensamentos peculiares como "o melhor vem depois", "espere que as coisas se acalmam", "deixe para depois". Com ela as coisas eram assim. Com ela isso pareceu sair a contento. Com ela foi assim.
DUBLIN - IRLANDA
O rapaz contou em tom casual, literatura de passeio, que se casou com um casal. Quinta-feira, 25 de setembro, uma tarde de sol na Irlanda. Bem, ele se casou com um casal, mas como ele era anteriormente casado, perguntou se existiria algum grau de parentesco entre sua mulher e o casal com quem se casou. Um casamento verbal, sem papel, porque "no verbal o mundo parece mais íntegro" - foi o que ele disse. Reparei que ele tinha as unhas da mão esquerda pintadas de azul; as unhas da mão direita eram carmim.
Esta situação vertiginosa, para muitos de nós, torna-se menos rara a cada dia. As interseções deixam os limites dos padrões e rumam para complexidades maiores e maiores.
Algumas pessoas adoram concepções que dificilmente têm, como ter desempenho de eficácia ou eficiência juntas; no entanto, as adotam exatamente porque é no impedimento que elas transitam com o espevitamento esportivo com que transitamos em um ferry boat em um domingo de sol. O que se tornou objeção para muitos de nós é incentivo ou autorização ou caminho para muitos dos outros de nós. Houve uma vez, conversei com uma garota, 19 anos aproximadamente, e ela me disse que decidiu abolir o nome de sua identidade. Apresentou- se por um som, um som que mistura o farfalhar das folhas com as batidas de uma asa de um pássaro; de uma asa somente, como ela explicou. O som que ela fez não me lembrou nem remotamente isso, mas a explicação ajudou bastante. Pessoas sem nome, com vínculos familiares indistinguíveis, com vidas incompreensíveis para os padrões atuais, elas se anunciam nos horizontes, elas se anunciam em Berlim, em Edimburgo, em Dublin, e muitas vão de fato existir.
A interseção delas, as pessoas "normais", "gente de bem", essas que tentam fazer com que tudo continue igual, ainda que considere isso, que é igual um grande engano, essa interseção será um acervo de estudos aos filósofos clínicos.
| ALÉM DOS CONSULTÓRIOS |
"Fora do leito, às vezes, os doentes adotam posturas características que orientam o diagnóstico. Nas cefaléias há tendência a imobilizar a cabeça colocando as mãos na sede da dor. Na doença de parkinson, a rigidez muscular é sintoma maior que prende membros, tronco e a cabeça com os dedos fletidos em ângulo reto sobre o metacarpo, tendo as duas últimas falanges em extensão, polegar estendido e colocado sobre o lado externo do indicador, na posição de quem pega caneta para escrever ou de quem conta dinheiro. As feições são rígidas, não denotando qualquer emoção, os olhos quase não piscam. Quando o doente fala, se expressa com grande lentidão, as palavras saem arrastadas, monótonas, lentas: isto é bradilalia.
No torcicolo, há duas possíveis situações: a primeira refere-se a espasmo da musculatura do pescoço e somente de um lado: a cabeça está repuxada numa direção; a face está voltada para o lado oposto e a espádua desviada para dentro. O examinador oclui um olho com a mão ou com um cartão. Se o torcicolo some em poucos minutos, o problema é uma paralisia de músculo ocular, um estrabismo paralítico. Ou não some. No primeiro caso, o paciente é encaminhado ao oftalmologista e no segundo, ao ortopedista."
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Lúcio Packter é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS), é coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Universidade Moura Lacerda, em Ribeirão Preto (SP), e da Faculdade de Filosofia São Miguel Arcanjo, em Anápolis (GO). luciopackter@uol.com.br. |
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