Oscilações da alma O cogitar que alimenta a gangorra clássica da Filosofia, entre o temor e a esperança, levando ao descontrole afetivo
Por Monica Aiub
Viver na sociedade contemporânea parece, para alguns, assustador: o temor de sair às ruas, o medo do futuro, da morte, da violência, da doença, da miséria, da solidão... São muitos os nossos temores. Mas o medo não é uma prerrogativa das sociedades contemporâneas. A Antiguidade Grega já abordava a questão.

Aristóteles, por exemplo, tratou do assunto afirmando, na Arte Retórica, que "o medo é uma dor ou agitação produzida pela perspectiva de um mal futuro que seja capaz de produzir morte ou dor" (1382 a). Também apontou, na Ética, que "o medo é definido como uma expectativa do mal" (1115 a).
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| A organização da sociedade atual, com a presença próxima e constante da miséria, da violência e do caos urbano, provoca uma série de temores, entre eles, o medo de sair às ruas |
Por que sofremos por uma expectativa, por uma perspectiva futura? Por que nos alteramos por medo, a ponto de nos descontrolarmos? Por que deixamos de dizer o que pensamos, fazer o que queremos, escolher o que consideramos melhor devido ao medo? O que faz com que algumas de nossas reações descontroladas, quando movidas pelo temor, venham a ser motivo de posteriores arrependimentos? O que ocorre conosco que permite ao medo, em algumas situações, ser capaz de interromper, travar nossas ações?
Na perspectiva aristotélica, o medo não é um mal em si. O aspecto negativo do medo residiria no desequilíbrio provocado por um temor desmedido. A saída, apontada por ele, para o equilíbrio necessário para a virtude estaria em encontrarmos a justa medida, o meio termo, o equilíbrio entre o excesso e a falta, entre as necessidades de cada singularidade e as necessidades do todo social.
Diante das situações cotidianas, como você estabeleceria a justa medida? Você consegue avaliar adequadamente as situações diante das quais se encontra? O que precisa fazer para isso? De que você tem medo? Seu medo é justificável? Há elementos nos quais ele possa ser fundamentado? Ou ele é fruto de algumas de suas divagações?
Epicuro apresentou o medo como uma das grandes causas de sofrimento humano: medo dos deuses, medo da morte, medo da dor, medo de dificuldades e privações. Ele considerava que esses medos eram fundamentados em opiniões falsas, e propunha o conhecimento de si e do universo como caminho para a imperturbabilidade humana. Você consegue não se perturbar com seus medos? Se você buscasse as origens de tais medos, o que encontraria? Eles são justificáveis?
Os estóicos defendiam que o mundo possuía uma ordenação racional perfeita, e que o medo era derivado de vermos no mundo algo que não existia e não podia existir. Segundo eles, calma e equilíbrio racional seriam suficientes para nos guiar do medo à precaução, não havendo um mal que pudesse ameaçar a razão.
"A alegria e a tristeza e, conseqüentemente, as afecções que destas são compostas ou delas derivam, são paixões. Com efeito, sofremos (somos passivos) necessariamente na medida em que temos idéias inadequadas e somente na medida em que as temos as sofremos, isto é, só sofremos necessariamente na medida em que imaginamos, por outras palavras, na medida em que somos afetados por uma afecção que envolve a natureza do nosso corpo e a natureza de um corpo exterior. Portanto, a natureza de cada paixão deve necessariamente ser explicada de maneira que exprima a natureza do objeto pelo qual somos afetados. A alegria que nasce de um objeto, por exemplo A, envolve a natureza do objeto A, e a alegria que nasce do objeto B envolve a natureza do objeto B; e, por conseqüência, essas duas afecções de alegria são diferentes por natureza, pois nascem de causas de natureza diferente" (ESPINOSA, 1973). |
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Segundo Espinosa, no livro Ética, a imagem de uma coisa passada ou futura tem o mesmo poder de nos afetar que uma imagem de uma coisa presente. Ao tratar das afecções, das paixões da alma, ele aponta medo e esperança como nascidos de uma imagem futura ou passada, da qual duvidamos do resultado. Com isso, aproxima as duas paixões a partir de uma origem comum: a dúvida. "Com efeito, a esperança não é senão uma alegria instável, nascida da imagem de uma coisa futura ou passada, de cujo resultado duvidamos; o medo, ao contrário, é uma tristeza instável, nascida também da imagem de uma coisa duvidosa. Se se retira a dúvida dessas afecções, a esperança transforma-se em segurança e o medo em desespero, a saber, a alegria ou a tristeza nascida da imagem de uma coisa que tememos ou esperamos" (Espinosa, 1973).
Para Epicuro, o medo se fundamentava em opiniões falsas. Ele propunha o conhecimento de si e do universo como caminho para a imperturbabilidade |
Como é possível que uma imagem passada ou futura nos perturbe a ponto de provocar oscilações em nossos estados afetivos? Como a dúvida sobre tais resultados pode nos mover ou nos impedir?
Espinosa define que "A esperança (Spes) é uma alegria instável nascida da idéia de uma coisa futura ou passada, do resultado da qual duvidamos numa certa medida", e "O medo (Metus) é uma tristeza instável nascida da idéia de uma coisa futura ou passada, do resultado da qual duvidamos numa certa medida". Destas definições ele afirma que "não há esperança sem medo, nem medo sem esperança". Se retiramos a dúvida, a esperança se torna segurança, e o medo se torna desespero. Assim, as oscilações da alma estariam diretamente relacionadas a tais imagens ou idéias de coisas passadas ou futuras, das quais duvidamos. Dúvidas que nos levam ora à esperança, ora ao medo.
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"A esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura sempre o veneno do medo" VOLTAIRE |
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| Detalhe de Aristóteles, por Raphael, 1509 Para Aristóteles, todos devem buscar a justa medida, "aquilo que não é nem demais nem muito pouco". O medo só seria um mal se em desequilíbrio |
Quantas vezes você sentiu um medo que tenha se tornado desespero? E quantas vezes você sentiu um medo completamente sem fundamento, que só serviu para o impedir de levar adiante suas ações? Já se desesperou em vão? Sofreu com esse desespero? Por outro lado, você já encontrou segurança numa falsa esperança? Sofreu por ter apostado na probabilidade de concretização de sua esperança? Já teve medo de que suas esperanças fossem vãs? Já perdeu a segurança por causa da dúvida, a ponto de abandonar uma possibilidade antes mesmo de se certificar sobre as condições existentes para sua realização? E, por acaso, você já sentiu um medo que lhe provocasse cautela na ação, impedindo graves desastres em sua vida? Ou já encontrou na segurança uma possibilidade de realização pessoal?
ORIGEM EM CRENÇAS
Muitos de nós passamos, constantemente, por algumas das situações apontadas. Não se trata, aqui, de avaliar se a hipótese de Espinosa faz algum sentido específico para cada um de nós, mas de observar de que maneira o temor e a esperança se tornam partes constitutivas de nossas crenças, dados dos mapas que traçamos para nossas ações no mundo, elementos significativos para nossas escolhas, para a construção de nossas vidas.
Você já observou as relações existentes entre seus medos e esperanças e suas crenças? Se os medos são, como afirmaram os autores até aqui citados, originados em idéias de coisas passadas ou futuras, eles estão diretamente relacionados às nossas crenças. Se modificarmos os significados que atribuímos a elas, se estabelecermos novas relações, nossos medos podem perder força, nossas esperanças podem se fortificar.
Nossas esperanças também seriam, segundo tais teorias, fruto de nossas crenças. Por isso, trata-se aqui, de crer ou não crer e, conseqüentemente, de conduzir a vida por um caminho compatível com nossas necessidades. Mas estaria Sartre correto ao propor que podemos "modificar o mundo"? Que podemos viver como se o mundo não estivesse suscetível a processos deterministas? Afirma ele: "Em suma, na emoção é o corpo que, dirigido pela consciência, muda suas relações com o mundo para que o mundo mude suas qualidades. Se a emoção é um jogo, é um jogo no qual acreditamos" (SARTRE).
Antonio Damasio, no livro O erro de Descartes, destaca uma química do organismo paralela aos processos neurais. Segundo ele, as emoções são processos que ocorrem em níveis neuronais, e provocam a produção de uma química específica, que permite, altera e determina as sinapses e, conseqüentemente, permite, altera e determina as reações, decisões e ações do indivíduo. Essa química é alterada não apenas pela ingestão de drogas (lícitas ou ilícitas), mas também pelo próprio funcionamento do organismo. Assim sendo, o uso de uma droga para controlar uma emoção, seria capaz de alterar, em sua base, a produção dessa emoção. Como a emoção possui um papel significativo nas decisões e comportamentos, estes seriam determinados pelos processos provocados pela atuação da droga no organismo.
Segundo estóicos, calma e equilíbrio racional seriam suficientes para nos guiar do medo à precaução, não havendo um mal que pudesse ameaçar a razão |
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