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Medindo sons e acordes
Da pretensão da Ciência em estudar objetivamente a música emerge a necessidade de uma abordagem não simplificada e simplista do fenômeno sonoro

POR NANDO ARAÚJO

SHUTTERSTOCK

Quando nos referimos às atividades científicas, o senso comum e alguns pesquisadores atribuem aos resultados das suas pesquisas um conhecimento produzido por procedimentos objetivos. Este saber, com o aval da Ciência, é considerado "verdadeiro" por ter sido gerado sem a influência de qualquer tipo de subjetividade. Dessa forma, o conhecimento científico dos fenômenos adquire legitimidade por possuir alguns postulados básicos implícitos: objetividade, neutralidade, conceitos, teorias, hipóteses, indução, verificabilidade, etc.

Antes de discorrermos sobre alguns desses postulados básicos da Ciência, cabe aqui uma questão: é possível tal abordagem científica quando o objeto é a música? Isto é, como podemos manter a objetividade científica nos termos das ciências positivistas ou neo-positivistas para este produto humano?

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Max Weber, 1894, considerado um dos fundadores da Sociologia. A ciência social empírica, da forma como Weber concebe, não admite o juízo de valor, que elimina a neutralidade científica. No caso da música, este distanciamento é inviável

Podemos dividir a atividade científica ou a produção do conhecimento, basicamente, em dois grupos: 1) as ciências empíricas, que necessitam de dados provenientes do mundo sensível para a formulação de suas afirmações, descrevendo e explicando os fenômenos, criando teorias e fundamentando-as em bases empíricas, constituídas, principalmente, pela observação sistemática e pela experimentação; 2) as ciências não empíricas, como, por exemplo, a Matemática e a Lógica.

A ciência empírica subdivide-se em Ciências Naturais (Física, Química, Biologia) e Ciências Sociais (Sociologia, Ciência Política, Antropologia, Economia, Historiografia). Ora, quando se pretende transformar a música em um objeto da Ciência, é decisivo verificar se ela pode ser investigada pelos métodos que constituem as áreas descritas acima, principalmente, pelo método das Ciências Naturais. Deve-se perscrutar, em igual medida, em quais ramos da Ciência a música pode melhor se adequar, bem como se as hipóteses e as teorias formuladas para o objeto música podem ser consideradas científicas, portanto, comprováveis e compatíveis com o conhecimento científico.

Logo de início, podemos comparar a música, enquanto Ciência, à Psicologia. A música, como a Psicologia, não possui uma delimitação muito clara no que concerne à sua total adesão às Ciências Naturais ou às Ciências Sociais. Analogamente à Psicologia, a música parece permear as duas grandes áreas da ciência empírica. A música como fenômeno acústico pode ser investigada pelas leis da Física, e como fenômeno sonoro-cultural, pelas Ciências Sociais (Sociologia, Antropologia, Economia). O fenômeno sonoro-musical ainda pode ser objeto da própria Psicologia, que se situa entre as duas áreas das ciências empíricas, emergindo daí a Psicologia da Música, uma ciência híbrida que pode se desdobrar ainda em outra disciplina denominada psicoacústica.


Uma teoria deve poder ser submetida a testes, para que assim possa ser refutada. Buscar a sua refutação é o que lhe dá o status de cientificidade

Mas nada nos impede de abordar a música pelas ciências não empíricas, por meio de uma concepção matematizante parecida com as especulações realizadas por Pitágoras no século VI a.C., pois em música está implícito um pensamento lógico-matemático que possibilita a sua compreensão e transmissão através dos números. Indo mais além, é cabível ainda investigar a música pelas ditas Ciências Humanas, pela Filosofia e pela Ética1. Abordar a música pela perspectiva da Ética é aproximá- la da concepção platônica de música, moralista, trazendo à luz discussões maniqueístas (bem e mal), ou seja, a música com o poder para agir na educação e na formação do caráter do homem e como promotora do bem-estar físico, psíquico e emocional do indivíduo. Abordar a música pela perspectiva da Filosofia (stricto sensu) é voltar-se para as especulações sobre a essência da música, sua possibilidade de constituir-se linguagem, de promover comunicação2. Ainda, é refletir sobre alguns aspectos importantes do fazer musical, tais como sensação, sentimento, gosto, tempo, espaço, imaginação, matéria, símbolo, linguagem, etc.

CARACTERÍSTICAS DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA

Segundo Mario Bunge, em seu livro Epistemologia, o conhecimento científico deve conter os seguintes elementos: 1) descobrir do problema; 2) apresentá-lo com precisão, se possível matematicamente; 3) buscar instrumentos que possam gerar conhecimento ou fundamentar o problema, tais como dados empíricos, teorias, aparelhos de medição, técnicas de cálculo, etc; 4) por meio dos instrumentos utilizados, tentar solucionar o problema; 5) propor novas idéias (hipóteses, teorias ou técnicas); 6) obter uma solução, se não exata ao menos aproximada do problema; 7) investigar as conseqüências da solução obtida; 8) provar a solução; 9) corrigir as hipóteses, teorias, procedimentos ou dados empregados na obtenção da solução.

Tudo indica que estamos diante de um fenômeno complexo da cultura que é transformado em construto3 da atividade científica por algumas áreas que almejam o status de cientificidade, para assim gozar um lugar nas universidades. Dessa forma, convém aprofundarmos um pouco mais as discussões sobre os problemas da Ciência, dos seus postulados, começando por analisar o duo ciência e objetividade, sempre em analogia com a música.

"O verdadeiro objetivo da ciência é a verdade; em contrapartida, o verdadeiro objetivo das artes é o prazer" GOTTHOLD LESSING

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