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Filosofia  
       
 
 
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Entre dois mundos
O diálogo religioso do judaísmo com as idéias platônicas e aristotélicas na construção da tradição mística conhecida como Cabala

POR CECILIA CINTRA CAVALEIRO DE MACEDO

A ÁRVORE DA VIDA, OBRA DE PAULUS RICIUS, 1516
Árvore da vida, símbolo da Cabala
Ela é composta por 10 Sephiroth, traduzidas como emanações. De acordo com o livro Zohar, cada Sephiroth representa um atributo divino, caberia ao homem adquiri-los em sua evolução

Estamos acostumados a ouvir que há uma oposição entre mística e Filosofia; que a mística seria do âmbito da simples fé, em contraposição à Filosofia, que se dedica à investigação racional. Mas temos que entender que nem sempre foi assim. De origem grega, o termo mística teve seu significado deturpado em épocas mais recentes, passando a ser utilizado no sentido de superstição infundada. Durante a Idade Média, a chamada mística especulativa - caracterizada pela utilização da linguagem racional - e a Metafísica - que se ocupava do princípio e do fundamento último de todas as coisas - freqüentemente se entrelaçavam, e desse encontro surgiram obras magníficas e grandes correntes místicas que sobrevivem até hoje. Uma destas grandes correntes é a conhecida expressão da mística judaica, denominada Kabbalah, ou Cabala.

A mística judaica é classificada normalmente por períodos históricos, de acordo com a proposta de Gershom Scholem. Nesta, são consideradas "fases" distintas com perfis bastante diferenciados as místicas relacionadas aos períodos da Merkabah e da Kabbalah. A mística da Merkabah é baseada na visão descrita no primeiro capítulo do Livro de Ezequiel, que afirma ter visto a imagem do carro celeste sobre o qual está o Trono de Deus, sustentado por seres do mundo superior, que foram, mais tarde, elevados à categoria de anjos. Esta descrição tornou-se objeto de contemplação e especulação dos místicos posteriores. Segundo Scholem, a essência do misticismo da Merkabah "não é a contemplação absorta da verdadeira natureza de Deus, mas a percepção de sua aparição no Trono descrita por Ezequiel, e o conhecimento dos mistérios do mundo do trono celestial1". Já a Kabbalah, se caracterizaria por ser mais extática e mítica, e teve suas bases formuladas entre a publicação do Sefer Yetzirah e do Sefer Ha-Zohar, entre os quais figura o não menos importante Sefer Ha-Bahir. Expandindo-se e desenvolvendo-se mais abertamente a partir do século XIV, a Kabbalah adquire um cunho popular, mágico e até mesmo messiânico2.

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Madonna causou polêmica quando se tornou público que estudava a Cabala. Apesar de ter ajudado a difundir as idéias cabalísticas, foi criticada por judeus ortodoxos por simplificar alguns conceitos

Para autores como Yehuda Liebes, não há como estabelecer uma datação clara do início da Kabbalah, e nem esta corrente pode ser caracterizada por um conteúdo mítico diferente, mas sim pela reformulação e adaptação do conteúdo tradicional judaico para uma linguagem apropriada ao momento histórico: "tento destacar que o Zohar e a Kabbalah Luriânica não diferem, como é normalmente sustentado, no conteúdo de seus mitos, mas, em seus padrões de pensamento, na utilização da linguagem e no tipo de ligação que assume com a Entidade Suprema3".

1 SCHOLEM, G. As grandes correntes da mística judaica, p. 45.
2 Como com Sabbatai Tvi. Ver IDEL, Moseh. Mesianismo y Misticismo. Barcelona: Riopiedras, 1994, p. 99 et. seq., e também SCHOLEM, G. Sabatai Tzvi: o Messias Místico. São Paulo: Editora Perspectiva, 1996, 3 vol.
3 LIEBES, Yehuda. "Introduction", Studies in Jewish Myth and Jewish Messianism. Albany, NY: State University of New York Press, 1993, p. viii.

Muitos acreditam que o pensamento místico da Kabbalah se contrapõe ao pensamento filosófico e racionalista. Quanto à Filosofia, esta afirmação é verdadeira em relação à matriz aristotélica, que passa a vigorar no pensamento medieval a partir do final do século XIII, mas não em relação aos pensadores de matriz platônica. Em relação à racionalidade, vale a afirmação quanto ao pensamento teológico-racionalista, representado pelo chamado Kalam judaico, cujo maior expoente é Saadia Al-Fayyumi; mas não representa uma oposição emocional ou subjetivista ao uso do intelecto para alcançar realidades cada vez mais altas, ou uma recusa da utilização da linguagem racional.

Diversas escolas filosóficas, como os pitagóricos e neoplatônicos em geral, são consideradas místicas. Convencionou- se denominar Neoplatonismo os esforços de síntese desenvolvidos pelos filósofos da antiguidade tardia, cujos maiores centros foram localizados em Atenas e Alexandria4. Ainda que eles próprios se auto-denominassem platônicos, existem algumas diferenças entre o pensamento daqueles filósofos e os escritos de Platão. Os neoplatônicos incorporaram idéias e conceitos de pensadores posteriores, incluindo uma boa carga da linguagem desenvolvida pela Filosofia aristotélica, mas mantiveram sua concepção de Filosofia orientada à busca do Bem, da Perfeição, da Verdade e da Beleza, o que lhes conferiu um caráter nitidamente místico. Agrupados sob a mesma denominação, aqueles diferentes filósofos concordavam, em linhas gerais, quanto ao modelo utilizado para a explicação do mundo. Baseando-se na origem última, no Uno transcendente, superior a tudo, e a partir do qual todas as coisas existentes procediam por emanações sucessivas, defendiam também a contemplação como caminho de retorno. Porém, uma série de diferenças pode ser notada entre eles, por serem originários de meios culturais e religiosos diversos.

A influência filosófica grega é mais forte e visível nas correntes especulativas e menos mágicas, encontradas no primeiro período da Kabbalah

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