editora Escala
Editora Escala
  Loja Escala | Faça sua Assinatura | Anuncie | SAC | 55 11 3855-1000    
 
Filosofia  
       
 
 
Envie para um amigo Imprimir

 

A angústia no pensamento de Kierkegaard
O filósofo vai buscar no pecado original as causas desse sentimento. O homem, depois de pecar, ganhou a liberdade, o direito de escolher. Mas toda escolha é uma vivência de angústia

POR CARLOS ROGER SALES DA PONTE

web gallLLery art - ulLtimo julLgamento, parte da

Ludwig Wittgenstein, filósofo alemão do século XX, afirmou certa vez que tinha enorme respeito por aqueles que, não se calando, tentavam dizer o que, para ele, não poderia ser dito porque não haveria condições de dizer (que ele resume em uma conhecida frase: "Aquilo que não pode ser dito, deve calar- se"). Para o filósofo, quem se dedica a isto é como alguém que se atira em um "salto", a fim de expressar um desejo de falar o que estaria para além da linguagem. Com certeza, pensava Wittgenstein, deveria existir "alguma coisa" a qual estes ditos apontavam. Mas, por não existir um modo adequado para dizer, quem o fizesse acabaria por afirmar coisas com pouco ou nenhum sentido. Kierkegaard e Heidegger, por exemplo, seriam deste tipo de pessoa - que "tenta dizer o que não pode ser dito". Ainda segundo Wittgenstein, a angústia faz parte destas "coisas" aparentemente impossíveis de serem ditas e conceituadas com justeza, embora seja incontestável sua existência para qualquer ser humano. É preciso, então, dar este "salto". E ele encontra justeza nas reflexões de Kierkegaard direcionando nossa atenção às suas palavras e intuições sobre a angústia.

Seria a angústia meramente um "sentimento"? Uma espécie de "doença"? Uma inevitável "maldição" sob a qual o ser humano está fadado e que resiste a uma definição precisa? Ou seria tão-somente um "incômodo" que vem e passa? Tentemos esboçar um traço compreensivo sobre como Kierkegaard aborda este afeto humano que tanto assusta como atrai.


ART RENEWAL INTERNATIONAL
Silêncio, obra de Henry Fuseli Wittgenstein afirma que há coisas que não podem ser ditas simplesmente porque não há condições de dizê-las, estão para além da linguagem. A angústia seria uma desta

Toda vez que nos chega aos ouvidos a palavra angústia é quase inevitável que a associemos a situações que nos deixam ou deixaram angustiados. E essas lembranças, quase sempre, conterão sentimentos e significados de "dor" ou "sofrimento". Apesar de tudo, esse "não sei quê" que desconforta e desassossega, por vezes nos chega, digamos, bem familiar: É como se nos falasse algo de nós mesmos. Mesmo com a incompreensão e o aparente mistério que envolta o estar angustiado, o certo é que sou eu mesmo que estou experienciando (palavrinha vinda da Psicologia que melhor descreve o trânsito de um afeto em nosso espírito) a angústia. Para além da "dor", há "algo" que clama em nós e nos aponta para alguma verdade em nós ou do mundo ao redor. E já que nem sempre sabemos do que trata nossa angústia, o que vem conscientemente é só o desconforto. Você já se sentiu assim? Lembram-se de como, às vezes, sentimos um certo mal-estar e sem nenhum motivo aparente para isso?

Para começarmos a compreender um pouco da angústia, é interessante saber o que a palavra quer dizer em si mesma.

É do latim que provém o vocábulo "angústia" tal como o escrevemos e pronunciamos em nossa língua. De um modo geral, ela indica algo de desconfortável ou doloroso como apertar, sufocar, esganar, atormentar, estreitar, brevidade, escassez, concisão. Isso sem mencionar que ela é também compreendida como uma espécie de mal-estar, constituindo-se de um medo sem objeto determinado (que é diferente de outros tipos de medo e que possuem um objeto definido. Por exemplo, ter medo de cães, que pode ser um objeto bem definido que dá medo em algumas pessoas) e de sensação física de aperto. O "Aurélio" também define angústia como "estreiteza, limite, redução, restrição; ansiedade ou aflição intensa; ânsia, agonia; sofrimento, tormento, tribulação".

LIBERDADE E RESPONSABILIDADE

Jean-Ppaul Sartre, filósofo existencialista francês do início do século XX, afirma que, no caso da humanidade, a existência precede a essência. Ddesta linha de raciocínio, que inverte o pensamento filosófico adotado até então, decorre a noção de angústia associada a liberdade. Ppara Sarte, nós existimos antes que nossa essência seja definida. Eele nega a existência de uma suposta "essência humana" pré-concebida.

Para o filósofo, o homem torna-se o que é ao fazer suas escolhas. Ee essas escolhas só cabem ao homem, sem que haja nenhum elemento externo que justifique suas ações. Sendo assim, o único responsável por suas ações é o próprio homem.

A responsabilidade tem papel de destaque no existencialismo sartriano, já que cada escolha carrega consigo a obrigação de responder pelos próprios atos e torna o homem o único responsável pelas conse qüências advindas de suas decisões.

Além de determinar o próprio destino, estas escolhas individuais também determinam o funcionamento do mundo. Iisto porque cada escolha acarreta outras mudanças ao redor. Ddesta forma, ao escolher, o homem não apenas torna-se responsável por si, mas também por toda a humanidade. Que peso! É esta a responsabilidade que provoca a angústia.

A angústia vem da consciência de que são escolhas próprias, individuais, que determinam a essência de quem se é e que essas escolhas podem afetar o mundo. Rretomando o raciocínio do início do texto, para Sartre, a angústia surge da consciência da liberdade e da responsabilidade de ter que usá-la da forma mais correta.

Portanto, a idéia que mais transparece é, sem sombra de dúvida, de estreiteza. E isso dá o que pensar sobre os possíveis sentidos deste "estreitamento". Seria de espaço? De tempo? De escolhas? Afinal, quem poderia "se ausentar de si mesmo" como se pudesse dar um tempo da própria vida e adiar a "dor", o "sofrimento" e a "estreiteza" (como diz uma canção que cada um sabe "a dor e a delícia de ser o que é") que fazem parte de nossa penosa existência, como afirma Schopenhauer. Quem pode fazer-de-conta que não está experienciando este mal-estar? Quem pode negar que a angústia é um evento que não se deixa mascarar?

É interessante notar, todavia, que só foi possível falar em angústia (tanto na Psicologia como na Filosofia) no momento mesmo em que, na história da humanidade, foi possível pensar em uma "subjetividade", isto é, uma dimensão que seria sinônima de interioridade psicológica, e que poderia se tornar dividida: uma parte mais consciente de si e outra mais ou menos inconsciente, como bem aponta a Psicanálise de Freud. O sujeito autônomo e consciente de si mesmo como ser pensante só entrou em cena com as reflexões de Descartes no início da Idade Moderna e daí por diante.

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>

 

 

 

Assinaturas
 
Assine as publicações do núcleo Ciência & Vida.
Matérias, novidades acadêmicas, reportagens e muito mais.
Filosofia História historia Psique
 
Edição nº 39
SUMÁRIO DA EDIÇÃO
MATÉRIA DE CAPA
REPORTAGENS
O QUE É FILOSOFIA?
EDIÇÕES ANTERIORES
EXPEDIENTE
FILOSOFIA
LEITURAS DA HISTÓRIA
PSIQUE
SOCIOLOGIA
AGENDA
ARTIGOS
Busca
Buscar
 
 
Newsletter
Cadastre-se e fique atualizado diariamente com nosso conteúdo.
  OK
 
 
Institucional
Publicidade
Adicionar Favorito
Links Úteis
 
 
Legenda
O acesso ao conteúdo do portal Ciência&Vida é identificado por cards.
Assinante
Cadastrado


 
Editora Escala
  Loja Escala | Faça sua Assinatura | Anuncie | SAC | 55 11 3855-1000