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Filosofia  
       
 
 
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Merleau-Ponty, ciência cognitiva e neurociência
POR JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA

SHUTTERSTOCK
Os membros fantasmas ainda são um desafio para a Ciência e para a Filosofia. Para Merleau-Ponty, trata-se de uma recusa em aceitar a mutilação

Este ano comemora-se o centenário do nascimento de Maurice Merleau- Ponty. Seria um ano de festa apenas para os historiadores da Filosofia se ele não tivesse tido também uma grande influência na Ciência cognitiva e se algumas de suas hipóteses neurológicas não fossem de interesse até hoje.

Na Ciência cognitiva, Merleau-Ponty influenciou profundamente a obra de Francisco Varela. Este cientista cognitivo, juntamente com Evan Thompson e Eleonora Rosch, escreveu, em 1991, um dos livros hoje clássicos nessa área, The Embodied Mind, em que são lançadas as hipóteses fundamentais de um dos paradigmas mais importantes da Ciência cognitiva do século XXI, a chamada “cognição situada”. Eles sustentam que não existe cognição sem corpo, e é essa hoje a principal proposição da robótica. Varela explicitamente relaciona suas teorias à filosofia de Merleau-Ponty.

NA NEUROCIÊNCIA, as teorias de Merleau-Ponty acerca de membros fantasmas ainda despertam interesse. Membros fantasmas sempre colocaram um desafio para a Ciência e para a Filosofia: como é possível sentir dores ou coceiras em braços ou pernas que já foram amputados? Contudo, a existência dessas dores é freqüentemente relatada após amputações e seu tratamento é muito difícil. Elas persistem mesmo após o uso de vários tipos de analgésicos, eletrochoques e até mesmo acupuntura. Tratamentos psicológicos como hipnose, biofeedback, psicoterapia, proporcionam alívio, mas não as eliminam.

No capítulo “O corpo como objeto e a fisiologia mecanicista” de sua Fenomenologia da percepção, Merleau- Ponty nos diz que nem explicações materialistas nem dualistas podem nos ajudar a entender a natureza desse fenômeno. A explicação fisiológica não pode dar conta de como um estímulo pode ser produzido por uma inervação que já não existe. A dor teria de ser algo que ocorre unicamente na mente desses pacientes, mas nesse caso não teríamos como explicar sua origem. E como conceber a dor como um fenômeno puramente mental? Será que faz sentido falar de sensações puramente mentais?

Merleau-Ponty propõe a utilização da noção heideggeriana de estar-no-mundo para solucionar esse problema. A dor no membro fantasma é uma recusa em aceitar a mutilação. Estamos comprometidos com um mundo intersubjetivo e inter-humano no qual nosso corpo está inserido e nesse mundo não há amputação.

VAMOS IMPROVISAR duas palavras para poder falar rapidamente da noção merleaupontyana de corpo: o corpo-hábito e o corpo- neste-momento. O corpo-nestemomento é meu corpo tal como ele existe fisicamente aqui e agora e o corpo-hábito é o que é dado pelos meus membros a partir das funções que eles exercem: minhas pernas para andar, minhas mãos para agarrar, e assim por diante. Conheço meu corpo pela sua orientação prática em direção aos objetos que estão no meu campo de ação, e é essa orientação prática que modela a imagem do meu corpo. A imagem do meu corpo é meu corpo- hábito. Se perco minha perna, tentarei andar com uma perna-fantasma, pois a imagem de meu corpo ainda não estará adaptada à situação atual do meu corpo. Daí as dores e coceiras em um membro fantasma poderem ocorrer mesmo após a amputação, pois meu corpo- neste-momento foi amputado, mas meu corpo-hábito não. O reconhecimento da amputação pelo corpo-hábito leva muito tempo e, enquanto isso não ocorrer, as dores em membros fantasmas persistirão.

Como a Neurociência recente passou a explicar a existência de dores em membros fantasmas? Um dos trabalhos mais importantes de que dispomos hoje é o do neurobiólogo indiano V. Ramachandran, que explica a origem das dores fantasmas de uma maneira muito próxima à de Merleau-Ponty. Ramachandran parte de uma versão neurológica do corpo- hábito. Ele é dado pelo “mapa de Penfield” ou “homúnculo sensorial” que há na superfície do cérebro onde existe uma representação do corpo. Contudo, essa é uma representação distorcida, na qual algumas partes são exageradamente maiores do que as outras. Por exemplo, a área correspondente aos lábios ou aos dedos ocupa tanto espaço quanto a área correspondente ao tronco. (Note-se que dedos e lábios estão profundamente envolvidos com a ação, seja no falar, seja no manusear objetos à nossa volta.) O mapa é bem ordenado, embora esteja de cabeça para baixo: o pé é representado no alto e os braços estão na base. Contudo, ele tem várias peculiaridades. O rosto não está perto do pescoço, mas abaixo da mão. Os órgãos genitais não estão entre as coxas, mas abaixo do pé.

ATÉ POUCO TEMPO, achavase que esse mapa não se modificava. Descobertas recentes mostraram, porém, que esse mapa pode se modificar mesmo quando já estamos em idade adulta. Ou seja, o conjunto de circuitos cerebrais de um adulto e suas conexões podem se modificar e se expandir, chegando a recobrir distâncias de até um centímetro.

Pesquisas nessa mesma linha mostraram que, quando alguém tem a mão amputada, provavelmente começa a ter dores fantasmas quando seu rosto é tocado. A razão para isso é que a área da mão no cérebro está embaixo da área do rosto e, quando há a amputação da mão, as fibras sensoriais que se originam no rosto passam a invadir o território desocupado da mão que foi suprimido. Em muitos casos, quando se toca o rosto de uma pessoa cuja mão foi amputada, ela passa a sentir dores na mão fantasma. À diferença da hipótese de Merleau-Ponty, a plasticidade do cérebro poderia ajudar na recuperação rápida de um corpohábito adequado e quem sabe até na desaparição da dor no membro fantasma, tarefa a que o próprio Ramachandran vem se dedicando. Mas há, por outro lado, a constatação do remapeamento inapropriado.

Mas a intuição de Merleau-Ponty não estava errada: as dores nos membros fantasmas são causadas por um desajuste entre o corpo-hábito (imagem do corpo) e o corpo-no-momento. Só que agora a Neurociência nos desvendou as bases neurais da imagem do corpo e do processo de remapeamento que leva à produção de dores no membro fantasma. Essa hipótese já foi confirmada pela magnetoencefalografia.

Enxergar a atualidade das filosofias é uma tarefa, por vezes, mais difícil do que revisitá-las e reconstituí-las. Mas, quando iluminamos o passado com o presente, temos a vantagem de não relermos a história da Filosofia como meros visitantes que fazem fila para entrar nos museus europeus.

JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA
é Ph.D. pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. www.filosofiadamente.org

 

 

 

 

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