As razões do inconsciente O diálogo entre a Filosofia e a Psicanálise sobre o conceito de inconsciente, central na Psicanálise e, ao mesmo tempo, um problema filosófico com uma longa e multifacetada história
POR RICHARD SIMANKE
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“O que pelo homem não é sabido, ou nem sequer pensado, através do labirinto do peito, caminha pela noite.”1 GOETHE |
Tomemos um exemplo simples de um lapso de linguagem como ponto de partida. Uma jovem estudante alemã conversava com alguns colegas do sexo masculino a respeito de um romance que girava em torno de um tema bíblico. Subitamente, percebe que não é capaz de lembrar-lhe o título, embora o conheça perfeitamente. Em vez do nome correto, vem-lhe à memória uma série de expressões latinas: “ecce homo”, “homo sum” e “quo vadis?”2 Uma vez analisado seu esquecimento, ele parece explicar-se por uma associação entre o título correto da obra em questão – Ben-Hur – e a frase alemã “bin Hure” (“sou prostituta”). Pronunciá-la, diante de seus colegas masculinos, soava à estudante como um convite sexual inaceitável diante de seus princípios morais. A significação sexual de seu esquecimento transparecia ainda na presença da palavra “homem” (homo) entre as associações substitutivas que lhe ocorreram. Acrescenta-se a isso o fato de que, na época, era comum o uso de expressões latinas para tratar de temas sexuais.
1 Was von Menschen nicht gewusst. Oder nicht gedacht. Durch das Labyrint der Brust. Wandelt in der Nacht.
2 “Ecce homo” é uma expressão bíblica (João, 19, 5), que significa “eis o homem”. “Homo sum” (“sou homem”), provavelmente refere-se à primeira parte do famoso adágio de Terêncio: “Homo sum; humani nihil a me alienum puto” (“Sou homem; nada que seja humano considero alheio a mim”). “Quo vadis?” (“para onde vais?”) é, assim como Ben-Hur, o título de outro romance histórico com temas bíblicos (a frase aparece em João, 13, 36), publicado pelo escritor e Prêmio Nobel polonês Henryk Sienkiewsicz, em 1895.
Este é um dos inúmeros exemplos coletados e analisados por Freud em sua obra Psicopatologia da vida cotidiana (1901), em que ele se propõe a explicar todos esses pequenos equívocos do dia que todos conhecemos tão bem — esquecimentos, lapsos verbais, ações equivocadas etc. — descobrindo as significações inconscientes neles envolvidas. Essas idéias estão tão difundidas em nossa cultura hoje em dia que temos muito pouca dificuldade em aceitar esse tipo de explicação.
Aceita-se a existência de pensamentos inconscientes com a mesma naturalidade com que se aceita que a Terra gira em torno do Sol |
Muitos tendem, inclusive, a esboçá-las espontaneamente — às vezes de forma injustificada, diga-se de passagem — diante de acontecimentos cotidianos como os sonhos, algum comportamento que possa ser tachado como “neurótico”, alguém que se possa classificar como “reprimido”, enfim, com relação a todos esses fenômenos e noções postos em relevo e popularizados pela Psicanálise. As pessoas parecem capazes de aceitar a existência de idéias e pensamentos inconscientes com a mesma naturalidade com que aceitam que é a Terra que gira em torno do Sol, contra todas as evidências perceptíveis imediatas. Contudo, a hipótese do inconsciente pareceu, durante muito tempo, a muitos pensadores bem informados, tão inverossímil e contraditória quanto, em certa época, a teoria heliocêntrica. O próprio Freud referiuse, certa vez, à sua descoberta como uma “revolução copernicana”, com isso aliando-se a Copérnico e Darwin como aqueles que teriam aplicado os mais duros golpes no narcisismo secular da humanidade. O biólogo e ensaísta Stephen Jay Gould considerava essa passagem, não sem certa razão, como uma das reivindicações mais imodestas da história do pensamento humano.
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| Cenas do filme Ben-Hur. Associações vistas como inaceitáveis pelo inconsciente podem provocar lapsos de memória, como o caso do título da obra Ben-Hur e a frase alemã bin Hure (“sou prostituta”) |
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