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Homem: o ser tecnológico
A tecnologia melhorou nossa vida e alterou nossa visão de mundo, mas fez com que passássemos a ser escravos de nós mesmos, abrindo mão daquilo que nos diferencia dos animais: a nossa liberdade

POR LILIA PINHEIRO



Marshall McLuhan autor do livro Understanding Media, defende a idéia de que as tecnologias surgem como extensões do corpo humano. O uso da roda, por exemplo, seria como uma extensão dos pés, cuja função é amplificada

Isso não é, obviamente, tão devastador se nos compararmos em expectativa e qualidade de vida aos nossos antepassados, que viviam certamente em condições bem mais ameaçadoras e precárias, mas a questão que se põe é de outra natureza: não estaríamos atualmente abrindo mão de nossa própria liberdade e tornando-nos escravos por meio daquilo que exatamente nos fazia tão singulares?

Se hoje nos é mais fácil, pelo menos para boa parte da humanidade, livrar-nos da fome e dos leões, se nos é mais fácil debelarmos boa parte das doenças que assolaram a humanidade no decorrer da história, a contrapartida parece ser que não conseguimos fugir do desemprego, e, quando sim, não do trabalho desvairado, do temor da obsolescência, do esgotamento nervoso, do estresse, da depressão.

Cabe perguntar: é a tecnologia a responsável pela mudança de nossa visão de mundo, ou é nossa visão de mundo que conduz as mudanças tecnológicas? A pergunta é oportuna porque nos leva a questionar: se não temos o poder de mudar o rumo de nossas vidas, de modificar nossa própria visão do mundo, e com isso modificar o próprio mundo, tornamo-nos reféns inoperantes diante daquilo mesmo que considerávamos tão especial: nossa liberdade.

Talvez um pouco de análise histórica ajude a ilustrar a questão. Tomando o exemplo da Grécia antiga e considerando a transição entre o período mitológico e filosófico, quando os gregos buscaram explicações cada vez mais racionais para explicar os fenômenos que vivenciavam, podemos observar como uma mudança em suas visões de mundo catalisou toda uma mudança em suas estruturas políticas e sociais (veja mais na matéria de capa da edição 26 O cuidado com a nossa casa: a lição que não aprendemos com os gregos).

Adiantando a linha do tempo, observamos como uma mudança de perspectiva no poder da racionalidade culminou com a transição entre a supremacia da razão e o início, com o advento do cristianismo, da hegemonia teológica, e percebemos como isso propiciou todas as mudanças fáticas que daí advieram, algo que, futuramente, seria revertido com o advento da modernidade e a reafirmação da razão como fonte de poder e dominação da realidade.

Não estaríamos abrindo mão de nossa própria liberdade e tornandonos escravos por meio do que exatamente nos fazia singulares?

Dito assim, parece-se querer defender que as mudanças que ocorrem no mundo são necessariamente produtos de uma fonte intelectual precedente: a razão em alguns momentos, ou a crença teológica em outro, mas a questão é um tanto mais complexa.

Não é raro observarmos ocasiões em que se defendem teorias que jamais parecem encontrar eco na realidade e que se perdem no tempo sem nenhuma efetivação, visões de mundo que não alteram em nada o próprio mundo. Por outro lado, não há dificuldade em se encontrarem mudanças que ocorrem (ou parecem ocorrer*) simplesmente por "acaso", sem nenhuma teoria que a preceda. Percebese, portanto, que não há, entre nossas visões de mundo e o próprio mundo, nenhuma relação unidirecional causal, de modo que nem toda mudança em nossas visões de mundo implique em mudanças fáticas no mundo, nem vice-versa.

* Não há interesse aqui em se especular sobre uma suposta ordem caótica ou ordenada da realidade, pois o ponto aqui se resume à questão epistemológica da necessidade ou não de precedência de perspectivas intelectuais como propiciadoras de mudanças fáticas e, portanto, especular-se sobre o que seja a própria realidade se mostra irrelevante.

O que parece mais razoável defender, com efeito, é que ambas se retro-alimentam, de modo que tanto nossas mudanças de visão, em momentos, propiciam e direcionam as mudanças fáticas, como também ocorre haver mudanças fáticas que propiciem ou facilitem nossas mudanças de perspectiva.

Se assim o for, talvez a resposta seja que, de fato, tanto nossa visão de mundo leva a mudanças tecnológicas como vice-versa, ou seja, o avanço da tecnologia também nos leva a mudar nosso modo de enxergar o mundo e, com isso, garantir uma constante retro-alimentação, parecendo até mesmo impossível distinguir uma ordem de primazia.

SHUTTERSTOCK
A tecnologia criou a cidade, mais confortável e segura do que a selva. Mas trouxe outros perigos, como risco de obsolescência, desemprego ou trabalho desvairado

Se a tecnologia nos faz mudar nossas visões do mundo, e, mais ainda, faz mudar o próprio mundo, como também nossa visão do mundo influencia nosso pensar tecnológico, será que não deveríamos sentir-nos menos compelidos, escravizados, como atualmente estamos sendo por esse mundo altamente especializado, e tentados, por conseguinte, a alterar um pouco nossa visão de mundo de modo a proporcionar-nos uma mudança em nossa demanda tecnológica?

Será que estamos sendo levados por uma correnteza necessariamente implacável da qual não podemos sair ou nadar contra? Ou será que nela permanecemos porque não estamos nos dando conta de que podemos nos esforçar um pouco, nadar pro lado e sair margem a fora?

Não seria interessante que, deliberadamente - pois não mais precisamos de um acaso da natureza ou de uma ajuda superior -, parássemos esse processo escravizante em que não mais parecemos dominar as demandas que se apresentam e devolvêssemos, nós mesmos, nossa tão distinta liberdade?

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Da Alma (De Anima). Lisboa: Edições 70, 2001.
DESCARTES, René. Descartes philosophical letters. Trad. A. Kenny. Oxford:
Oxford University Press, 1970.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da
desigualdade entre os homens. São Paulo: Editora Ática, 1989.
CHOMSKY, Noam. O conhecimento da língua: sua natureza, origem e
uso. Trad. Costa, M. A. Lisboa: Caminho, 1994.

Lilia Pinheiro tem Graduação (UECE) e Mestrado (UFC) em Filosofi a, é Professora de Filosofi a em EAD (Educação a Distância) da UFC Virtual, Professora Adjunta de Filosofi a Clínica no Ceará e cursa atualmente o Doutorado Institucional em Filosofi a Clínica.

 

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