Homem: o ser tecnológico A tecnologia melhorou nossa vida e alterou nossa visão de mundo, mas fez com que passássemos a ser escravos de nós mesmos, abrindo mão daquilo que nos diferencia dos animais: a nossa liberdade
POR LILIA PINHEIRO
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| Rousseau criou um neologismo para exprimir a capacidade que o homem possui de se aperfeiçoar: "perfectibilidade". Para o filósofo, as duas características que distinguiriam os homens dos animais seriam a liberdade e a perfectibilidade. Esta última é a que permite aos seres humanos aprender habilidades específicas e adquirir conhecimento, sempre usando, com o auxílio das circunstâncias, sua razão em potencial |
A gênese da linguagem articulada é assunto controverso: se é um dom divino, se é fruto de uma evolução natural que revela fortes componentes genéticos - como defende Chomsky, que acredita haver identificado elementos comuns a todos os consideidiomas -, se é produto de uma evolução sem nenhuma base hereditária ou do meio - como querem os construtivistas, etc. -, são especulações que se mostram irrelevantes para nossos propósitos.
REPERTÓRIO INFINITO
Com efeito, importa-nos aqui apenas perceber que é a linguagem humana bastante distinta da linguagem dos demais animais.
A linguagem falada certamente exige uma habilidade fonológica privilegiada, que os demais animais não demonstram possuir, e especula-se que os humanos ancestrais também não dispusessem, mas isso também é irrelevante, porque não devemos reduzir a linguagem a seu aspecto sonoro. É óbvio que há outras formas de comunicação, e, portanto, de linguagem, como gestos, feições etc., que sabemos serem utilizadas por várias espécies, inclusive a humana, não estando aí, portanto, a distinção.
A diferença entre a linguagem humana e a animal caracteriza-se, em seu aspecto relevante, não pela fala, mas por algo chamado composicionalidade
Animais, obviamente, se comunicam, mas percebe-se que, diferentemente dos humanos, eles possuem um acervo restrito de mensagens. Isso significa que, enquanto eles se comunicam por meio de uma quantidade limitada de mensagens - seja por gritos, gestos, feições -, a linguagem humana possibilita-nos compor infinitas mensagens, mediante símbolos que se articulam indefinidamente.
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| Charles Darwin, de George Richmond. A mudança, na vida dos humanos, é muito mais acelerada do que aquela ditada pela evolução natural das espécies |
Observando primatas, nossos achegados genéticos, percebe-se que eles possuem as mais avançadas habilidades comunicativas dentre a vasta fauna terrestre, sendo os que mais se aproximam, em qualidade, aos humanos. Essas habilidades, contudo, resumem-se a alguns poucos gestos, sons e feições que comunicam basicamente situações de medo, fome, dor etc., e isso se dá de forma limitada a umas poucas combinações, que significam algumas poucas mensagens.
Já a linguagem humana, que possibilita a combinação infinita de palavras e frases, permite-nos a construção, respectivamente, de infinitas mensagens. Permite- nos decompor a realidade, ou melhor, criá-la, de acordo com as representações que escolhemos adotar. Permite-nos elaborar teorias, especular sobre o futuro, sobre a vida e a morte, conjeturar sobre nós mesmos e sobre a própria linguagem.
Claro que todo esse arsenal de possibilidades lingüísticas é determinante para a evolução humana, mas a característica aqui mais relevante proporcionada pela linguagem é que ela possibilita o acúmulo de conhecimento.
Poderíamos certamente imaginar um ser humano criando várias ferramentas e técnicas pessoais para facilitar sua existência, mas essas seriam perdidas se não pudessem ser comunicadas e eternizadas pela linguagem. Destarte, por mais que um ser humano, considerado isoladamente, possa transcenderse e superar-se - e mesmo aos demais -, isso seria perdido se não pudesse ser comunicado e perpetuado, e, se assim o fosse, não haveria evolução, não haveria cultura, não haveria história.
EXTENSÕES DO HOMEM
Quando se fala em tecnologia, geralmente vem à mente a idéia de artigos eletrônicos de última geração, artefatos complexos, fruto de investigações científicas altamente sofisticadas. Pensa-se, via de regra, em máquinas superpoderosas, computadores, celulares e outros artefatos do gênero. É certo que realmente o são.
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| O poeta e a musa, de Auguste Rodin. Para Heidegger, a linguagem é a casa do ser e pensadores e poetas são os guardas desta habitação. A linguagem dá ao homem a transcendência intelectual |
Mas essa visão é, certamente, incompleta, pois tecnológicas também são as descobertas/invenções que não parecem ser, ao nosso olhar atual, tão complexas ou sofisticadas. É tecnologia a utilização do fogo, há cerca de 800 mil anos, a criação de instrumentos de pedra, há 100 mil, da roda, há 4 mil, para citar algumas. Tecnológicas são quaisquer criações que ampliem nossas características naturais.
Especulando-se sobre a história da humanidade, partindo de seus primórdios, quando o homem representava basicamente os papéis de presa e predador, percebe-se como a tecnologia, ou seja, a capacidade - talvez dada (por um Criador) ou desenvolvida pelo homem (por uma evolução natural) - de superar determinações p u r a ment e naturais foi a responsável por toda a evolução que experienciamos no desenrolar da história. História essa tornada possível por essa capacidade humana de autotranscender-se, fruto de nossa perfectibilidade, de nossa habilidade para nos aperfeiçoar.
O que vemos hoje é que a culminância dessa capacidade tão especial, que nos possibilitou tornar-nos seres tecnológicos altamente especializados, levou-nos a representar papéis aparentemente bastante distintos daqueles interpretados por nossos ancestrais. Atualmente - exceto por alguns poucos, que circunstancialmente se encontram em lares abastados ou que se contentam em viver da escassa solidariedade humana -, somos forçados a representar outros dois papéis: os de produtores e de consumidores.
Tecnologia nada mais é do que essa capacidade humana de transcendência de suas limitações naturais levada ao mundo prático |
Se há que se considerarem as diferenças, e certamente se há, por um lado, evoluímos enormemente em termos de quantidade e qualidade de vida em relação a nossos ancestrais, mas, por outro, essa mesma tecnologia parece estar nos pregando uma peça.
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