Odeio, logo existo O homem tem natural inclinação para a agressão e não para o amor. Num mundo marcado pelo terrorismo, o ódio está no topo da lista dos problemas filosóficos
POR MARCELO GALLI
No Fla X Flu da vida nunca houve muitos lugares para o fairplay. O jogo limpo é uma exceção, o ódio, um sentimento que pode mostrar a sua face no limiar de cada ação humana, e o time que joga a bola intencionalmente pela lateral, para ajudar a esquadra adversária, pode receber de volta uma goleada monumental em forma de fúria. A camisa da razão estirada na grama do campo, o homem jogando com o seu lado sombrio, escondido muitas vezes para debaixo do tapete.
"Não sei como você, torcendo pelo Fluminense, pode reparar em quem está jogando bem ou mal no time contrário. Para mim, só vejo o meu time. Tirante os 11 que vestem a minha camisa, todos os demais são uns filhos da puta que só atrapalham, e eu quero que vão para o inferno, são uns pernas de pau desleais, assassinos, facínoras, deviam ser expulsos de campo porque não deixaram o meu time vencer." Esta foi a resposta furiosa de um flamenguista ao amigo póde- arroz, o escritor carioca Carlos Heitor Cony, quem relata a história na crônica "A regra do jogo" (Folha de S.Paulo, Ilustrada, oito de agosto de 2008), depois de uma partida disputada no estádio do Maracanã, cujo resultado foi "um empate incolor". Essas palavras, transferidas para inúmeros contextos, poderiam ser creditadas aos terroristas que derrubaram as torres gêmeas, à direita e à esquerda, a Creonte na tragédia Antígona, de Sófocles, aos Montecchio e Capuleto, Tom and Jerry, tutsis e hutus, judeus e palestinos, homens e mulheres, a você e a mim.
Cego como a ilusão do amor universal, sonho cristão, é o ódio. Nos olhos dos homens continua a refletir o olho sem brilho da vítima, "e o último grito com que se deleitam enterrase indelével em suas almas", ensaia o pensador Elias Canetti, em Massa e poder (Companhia das Letras, 2005), e conclui: "Os homens eram perseguidores e, à sua maneira, seguem vivendo como tais. Buscam carne alheia, cortam-na e se alimentam do tormento das criaturas fracas".
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| Medea, de Evelyn De Morgan, 1889. Medéia, protagonista da peça de mesmo nome do dramaturgo grego Eurípedes, depois de traída pelo marido e expulsa do reino, mata por vingança até os próprios filhos |
A onda de terrorismo hoje levanta o questionamento sobre o sentimento de cólera que toma as consciências mundo afora em um ritmo cada vez mais acelerado. É o problema filosófico número um da atualidade para o pensador francês André Glucksmann, autor do livro O discurso do ódio (Editora Difel, 2007). "O terrorismo nos educa mais do que se deixa educar. Questiona cada um em seus relacionamentos com os outros, com o mundo e consigo mesmo", explica Glucksmann, que espelha um desejo quase que intransponível de acabar com tudo e com todos, levar o mundo à destruição total e instaurar o apocalipse planetário.
Os atos terroristas exprimem, para entrar no campo da Psicanálise de Freud, a "pulsão de morte" que todos os seres humanos alimentam no inconsciente
Os atos terroristas exprimem, para entrar no campo da Psicanálise de Freud, a "pulsão de morte" que todos os seres humanos alimentam no inconsciente, a relação interior e conflituosa entre Eros e Tânatos. Na obra clássica de sua autoria, O mal-estar na civilização, a agressividade humana, ou melhor, a impossibilidade de colocá-la em prática por conta das imposições da cultura e do mundo civilizado, é um fator de frustração. Teoricamente, tal condição lhe assegura mais segurança se comparado à gozada pelo primo distante das cavernas. Por isso "não é fácil aos homens abandonar a satisfação dessa inclinação para a agressão. Sem ela, eles não se sentem confortáveis", escreve Freud.

Preceptor de um dos mais sanguinários imperadores de Roma (Nero), Sêneca escreveu antes da chegada ao poder de seu pupilo um tratado sobre a cólera, além de fazer releituras de tragédias gregas, como Medéia, personagem mítico que, após ser traída pelo marido (Jasão) e banida do convívio com os filhos, refugia-se e alimenta a vingança. Sua vontade de aplacar esse sentimento não poupa nem os próprios filhos. "Nenhuma força no mundo, nenhum incêndio, nenhum ciclone ou máquina de guerra possui a violência de uma mulher abandonada, nem sua violência, nem seu ódio", escreve Sêneca na tragédia em questão. O filósofo romano foi contemporâneo de Jesus Cristo e um dos principais nomes do estoicismo, doutrina cuja característica principal é ter a coragem e resignação como motes de vida.
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| O equilíbrio do terror, mantido no passado pelas grandes potências, não existe mais. O terrorismo dissemina o poder de destruição. Hoje, viver é sobreviver ao ódio, afirma o pensador Glucksmann |
Em uma passagem no tratado sobre a cólera, Sêneca chama a atenção para o papel que o acúmulo de ressentimentos pode desempenhar, funcionando muitas vezes como uma bomba- relógio, sem ponteiros ou números que contabiliza as mágoas e não sabe quando poderá explodir. Aqui, a ironia é, ao mesmo tempo, didática e cruel: a cólera ou o ódio são como ataques terroristas, não sabemos quando acontece, quando surge, nem tampouco o estrago que pode provocar. "Ele é pura excitação e dedica-se inteiramente à impetuosidade de seu ressentimento: ele não pode recuar diante de um desejo ardente e inumano de combate, sangue e suplícios. Indiferente a si mesmo, desde que possa prejudicar os outros, o ódio se precipita sobre suas próprias armas, ávido de uma vingança que arrastará consigo o vingador", analisa o filósofo romano.
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