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Trabalho, ócio e capitalismo
"Como a evolução do trabalho levou as pessoas à execução mecânica de seus afazeres e ao desconhecimento do que fazer com o tempo livre"

POR MARIO ANTÔNIO DA SILVA

IMAGENS ART RENEWAL/ WIKIPEDIA - MONTAGEM: FERNAND

O trabalho pode constituir um processo de humanização ou de desumanização. Em sua função humanizadora, o trabalho se caracteriza por uma atividade, por meio da qual o homem transcende a si mesmo, transforma a natureza, produz cultura e estabelece relações sociais saudáveis. Em sua função desumanizadora, o trabalho se reduz a um ato de satisfação das necessidades biológicas e econômicas, convertendo-se numa atividade mecânica e alienante. O trabalho desumaniza quando perde as referências valorativas e se transforma num meio de exploração do homem. A forma como trabalhamos expressa o que pensamos de nós mesmos, dos outros e do mundo. A forma como o trabalho é organizado expressa os valores da sociedade a que pertencemos.

Da Antiguidade aos nossos dias, o tempo dedicado ao trabalho sofreu alterações. No início, quando surgiram os primeiros clãs, o tempo dedicado ao trabalho limitava-se ao da obtenção da sobrevivência do grupo. O restante do tempo era preenchido com brincadeiras, festas, danças, cerimônias, rituais etc. Os povos considerados primitivos e incivilizados trabalhavam menos e necessitavam de poucas coisas para viver. Hoje, o ser humano não trabalha para viver, para atender a suas necessidades vitais. Ao contrário, vive para trabalhar, para acumular riquezas, num processo de acumulação infinita.

coleção particular
O jovem servo leva o escudo a seu mestre (380-370 a.C.). Na Grécia Antiga, o trabalho do escravo permitia aos cidadãos ditos comuns mais tempo para se dedicarem à política e ao debate, no que se pode chamar de ócio virtuoso. As relações sociais entre esses cidadãos, com mais tempo disponível para os debates se baseiam na troca de conhecimento com outros povos e costumes, o que lhes permitia fazer comparações, generalizações e tirar novas conclusões

Do ponto de vista social, nem sempre o trabalho foi visto como um valor. Na Antiguidade, o trabalho manual ficava reservado aos escravos e aos servos, considerado uma maldição a que estavam destinados. Os soberanos, os reis e os sacerdotes não se ocupavam com trabalhos manuais. A classe rica vivenciava os valores aristocráticos: a guerra, a caça e o mando. Os gregos desprezavam o trabalho, considerado obrigação dos escravos e degradação do homem livre. Uma passagem da obra A política de Aristóteles elucida bem o que a Antiguidade pensava a respeito da escravidão: "Há na espécie humana indivíduos tão inferiores a outros como o corpo o é em relação à alma, ou a fera ao homem; são os homens nos quais o emprego da força física é o melhor que deles se obtém. Partindo dos nossos princípios, tais indivíduos são destinados, por natureza, à escravidão; porque, para eles, nada é mais fácil que obedecer. (...) A utilidade dos escravos é mais ou menos a mesma dos animais domésticos: ajudam-nos com sua força física em nossas necessidades cotidianas" (ARISTÓTELES, s. d., p. 24).

Análise cronológica

A Idade Média não modificou substancialmente o conceito de trabalho. Em geral, o pensamento medieval considerava a ars mechanica (arte mecânica) uma ars inferior. Numa sociedade dividida em estamentos, o clero rezava, os cavaleiros guerreavam e os servos trabalhavam. A servidão era justificada pela ordem divina. A valorização do trabalho ocorre no início da Idade Moderna com o Renascimento e com a Reforma Protestante. No Renascimento, surge a concepção de que o trabalho é inerente ao homem. O calvinismo valorizou o trabalho ao criar uma ética favorável ao lucro, ao trabalho árduo e ao enriquecimento pessoal. Por isso, foi muito bem aceita pela burguesia comercial, que desejava uma ética religiosa que justificasse sua ambição material. A riqueza material era interpretada pelos seguidores de Calvino como um sinal de salvação predestinada. A ética protestante era bem aceita porque ocultava a exploração e servia de justificativa para a acumulação capitalista. Mesmo sendo contrário à usura, Lutero justificava o enriquecimento como fruto do esforço pessoal e da graça de Deus.

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