Da condenação à liberdade Pela perspectiva sartriana, a liberdade é uma espécie de condenação, que já leva o homem a ser responsável pelas possibilidades que escolheu para si próprio
Por Augusta Cristina de Souza Novaes e Márcio Antônio de Paiva
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| Lamento por Ícaro, obra de Herbert James Draper. O mito de Dédalo e Ìcaro pode representar a idéia do homem responsável pela sua liberdade. Para fugir de seu cativeiro e ser livre como os pássaros, Ícaro e seu pai Dédalo constroem asas com cera e penas |
O desejo de refletir sobre a radicalidade da liberdade humana na perspectiva do existencialismo ateu e cristão deu-se a partir das aulas de Cultura Religiosa que foram ministradas por mim na PUC-MG. Àquela ocasião, exibi aos meus alunos o filme A missão1, com o qual tenciono exemplificar as reflexões pretendidas. Convidei para dialogar sobre o tema o professor Márcio Paiva (PUC-MG). Partimos do pressuposto de que ateus e não ateus são sujeitos igualmente livres, sendo a liberdade o que nos define como sujeitos autônomos condenados, em termos sartrianos, a inventarmos a nós e ao nosso mundo nos limites da situação concreta na qual existimos.
Rodrigo e Padre Gabriel são as personagens da trama que focaremos para fins de ilustração. Rodrigo é um comerciante de escravos, índios guaranis, que, após uma viagem de captura de "peças", descobre que sua noiva havia se envolvido amorosamente com seu irmão caçula a quem muito amava. Sentindo-se traído, mata seu irmão. Desconsolado, refugia-se entre os padres jesuítas definhando aos olhos destes. Nestas circunstâncias, Padre Gabriel é chamado a vir em socorro de Rodrigo. Padre Gabriel é um missionário envolvido com a catequese dos guaranis e conhece a reputação do homem a quem é solicitado socorrer. Ele dirige-se a Rodrigo, olhando-o nos olhos, exorta-o a reagir, dizendo-lhe ser covardia a desistência e desafiando-o a determinar para si o preço do perdão que deseja. Rodrigo delibera ser o custo do perdão ir com seus instrumentos de morte às costas até os guaranis da missão São Carlos dirigida por Padre Gabriel, a fim de rogar-lhes perdão. Carregando pesado fardo, chega ao destino almejado, vindo a se tornar, com o tempo, um jesuíta. Por questões diversas, a Igreja decreta o fim das missões, tendo ordenado aos padres que abandonassem os índios e voltassem à congregação de origem sob pena de excomunhão. Os padres decidem pela desobediência. Trava-se uma guerra entre colonizadores e guaranis. Rodrigo comanda um bravo exército composto por índios e padres, e morre em combate. Gabriel arma-se de esperança e celebra aquela que seria a última missa na missão São Carlos. O cardeal que determinou o fim das missões não fica indiferente diante do massacre e compreende, que o mundo é feito de escolhas.
1 A missão é dirigido por Roland Joffé

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| Imagem do filme "A Missão" (The Mission, Rolland Joffé, 1986). Arrependido de matar o irmão, um mercador de escravos viaja para dentro de si e traz à tona a questão do autoconhecimento e da essência do Ser |
O que são homem e mulher? Na linguagem sartriana, homem e mulher são seres cujas existências se revelam como projeto.
Assim, sobre o homem e a mulher existentes podemos dizer que estão abertos - necessariamente - às possibilidades que escolherem para si próprios. Não existe fechamento possível ao homem e mulher, sem que resulte em estereotipia. Que homem e mulher digam ser isso ou aquilo é aceitável se o fazem conscientes de que, se assim são, poderiam ter sido de outra maneira, ou podem ainda vir a ser diferentes do que se apresentam sendo.
Em A missão, Padre Gabriel lembra a Rodrigo, quando este se encontra enclausurado em culpas, que ele é livre, mas que não é livre para deixar de ser livre. A palavra covarde bem empregada por Padre Gabriel tem o efeito moral/ terapêutico de retirar Rodrigo da depressão mórbida e conduzi-lo à vida. A depressão de Rodrigo pode bem ser traduzida em termos de má-fé, que nada mais é, no caso da personagem, do que covardia moral/desistência. Ouçamos Sartre novamente:
"...o existencialista, quando descreve um covarde, diz que este covarde é responsável pela sua covardia. Não é ele covarde por ter um coração, pulmões covardes, não o é a partir de uma organização fisiológica, mas sim porque se construiu como um covarde pelos seus atos" (Sartre, 1979).
Padre Gabriel, como dissemos, desafia Rodrigo a escolher sua penitência. Escolher sua penitência significa reencontrar- se consigo mesmo. Ao voltar-se para si, necessariamente, Rodrigo encontra o outro, o outro diante do qual se sente culpado. Mais uma vez Sartre:
"...a descoberta da minha intimidade descobre-me ao mesmo tempo o outro como uma liberdade posta em face de mim. Assim, descobrimos imediatamente um mundo a que chamaremos a intersubjetividade, e é neste mundo que o homem decide sobre o que ele é e o que são os outros" (Sartre, 1979).
Antes de continuarmos, consideramos pertinente determo-nos um pouco sobre a questão da alteridade na perspectiva de Sartre.
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