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O homo sapiens do século XXI
Michel Serre vê, em meio à globalização e ascensão econômica de povos asiáticos, latino-americanos e europeus do leste, a evolução para um homem mestiço e universal, que necessita repensar seu acordo com a natureza, seguindo uma nova filosofia

POR JUAN VELASQUEZ

Os chineses que migram do campo para metrópoles como Xangai são animados e sorridentes, parecem-se com os brasileiros e sua alegria inocente. Os europeus do Leste, com semblantes diferentes, porém com a fleuma européia clássica, se assemelham aos indianos, que, com sua ancestralidade arraigada e hoje arrojados em pesquisa tecnológica, se parecem com os latino-americanos. Esse fenômeno é apenas uma face de uma mestiçagem que vem ocorrendo em todo o mundo e viabiliza o nascimento de novas ponderações sobre um novo homem.

REPRODUÇÃO
Homem Mestiço, por Albert Eckhout (1641-44). A mestiçagem era considerada, no século XIX, como um obstáculo à modernização. Apenas em 1930, passa-se a fazer um retrato positivo da mestiçagem e da transculturação, com o respaldo de alguns autores como Gilberto Freyre, que falava em "democracia racial" e o mexicano José Vasconcelos, que cunhou a expressão "raça cósmica"

No momento em que esses povos vêm ascendendo no cenário global e mostrando uma forma nova de liderá-lo, e em que potências como Estados Unidos e Europa se dobram a novas formas de fazer tecnologias; no momento em que a produção de recursos naturais na América Latina não é suficiente para atender às demandas no mundo, o filósofo francês Michel Serres nos propõe o pensamento sobre as mudanças recentes no corpo, na medicina, na tecnologia e, principalmente, na cultura e no nosso acordo com a natureza. Raciocínios necessários desde a segunda metade do século passado, quando se anunciaram mudanças prementes no referencial do ser humano, ocasionadas pelo final da Segunda Guerra e as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.

Mas as misturas de raças são apenas um reflexo da mestiçagem real, que é a do homem com ele mesmo. A evolução de destros e canhotos a homens que usam seus dois lados. O ser mestiço é alguém que deixou sua dicotomia Ocidente e Oriente para ser universal. Serres estuda a mestiçagem no pensamento filosófico, de forma a concebê-la como resultado da dialética entre as ciências humanas e a realidade local e global.

Ele propõe um novo homo sapiens (do latim, homem sábio e racional) universal, e um pensamento filosófico que o imagine incandescente, repleto de possibilidades, consciente das mudanças que vêm ocorrendo ao seu redor.

O filósofo já foi professor visitante da USP, teve seus pensamentos discutidos em encontros de outras universidades brasileiras e participou do programa Roda Viva - na TV Cultura - em 1999.

Alguns anos depois, como o Zaratustra de Nietzsche, Serres desce a montanha e quer falar ao homem sobre nada menos do que a reconciliação deste com seus pares; do reencantamento da natureza. Para isso, indica como caminho recuperar a memória do tempo perdido e reconstruir a grande narrativa da vida. Esta que mostra mais uma vez que a consciência da finitude de cada pedaço do mundo e do universo é uma receita de tolerância e completude, em vários e complexos sentidos.

Na simbiose com a natureza, o filósofo propõe um novo contrato com a mesma. "Há simbiose entre as células, entre moléculas, entre elas e o corpo, entre o corpo e os vírus que o atacam, entre eles e as bactérias, entre a forma como combatemos os dois. O reino do ser vivo é um eterno equilíbrio movediço entre o parasitismo e a simbiose. Qual é a educação? É ensinar alguém a deixar de ser o parasita do outro e ensinar autonomia.", disse Serres em sua última visita ao país. Ele faz referência à bióloga Lynn Margulis, que ganhou o Nobel de Biologia em 1996 por revelar a Teoria da Endossimbiose.

O ser mestiço de Michel Serres é aquele que deixou sua dicotomia Ocidente e Oriente para ser universal

Com base no termo, ela mostrou que, na história da evolução, imperou mais a colaboração entre as espécies do que a competição pela sobrevivência. Enquanto cianobactérias iam oxigenando a atmosfera, outras bactérias suportavam mal os processos de oxidação desencadeados, bem como a crescente reatividade do ar.

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