O cuidado com a nossa casa: a lição que não aprendemos com os gregos Muito diferente do que fazemos hoje, as relações naGrécia antiga zelavam pelo respeito ao planeta e a valorização dos recursos naturais, modelo de vida impetrado por meio da Educação e da Ética. Um exemplo a seguir
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Neivor Schuck é Graduado em Filosofia pelo Centro Universitário São Camilo e mes trando em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e-mail: neivorschuck@yahoo.com.br |
"A natureza é uma doce guia, mas não mais doce do que prudente e justa" Montaigne |
Para o estudioso alemão Werner Jaeger (1888-1961), a Paidéia (Educação) é requisito dinâmico da sociedade. O espaço da participação democrática exige a aceitação da perspectiva de que todos os que nele adentram são co-responsáveis pelas decisões e pela discussão dos problemas comuns |
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A educação pode contribuir de maneira decisiva na tomada de consciência acerca do problema do descuido com o meio em que vivemos, com nosso corpo, ambiente e sociedade. Nas diferentes áreas de atuação do ser humano percebe-se a destruição dos recursos naturais, o descaso com a coisa pública e a ausência de uma política séria. Um caminho para a resolução desse problema poderia ser o resgate da ação dos gregos no âmbito político, no que se refere à tentativa de estabelecer uma aproximação entre ethos e oikos. Parece paradoxal, mas ambos, ethos (a ética) e oikos (a casa), relacionavam-se na Grécia Antiga, provocando a compreensão da ação ética como uma ação em respeito à casa. O resgate desta forma de ação grega, na educação, poderia reaproximar e proporcionar à condição humana uma possibilidade de se tornar comprometida com o bem-estar social, político e ético.
Segundo Aristóteles (1991:27), existem dois tipos de ética: a intelectiva ou reflexiva - que consiste no exame feito das condutas morais, passível de discussão - e a moral fundada no hábito - a repetição cotidiana das ações. A ética, entendida como valorização das capacidades intelectuais e como costumes de um determinado grupo social, permite uma compreensão da realidade da sociedade de nossos tempos, mas não nos explica a ausência de respeito com a casa (planeta) e o outro. Para os gregos, a capacidade humana de organização política, ao mesmo tempo que se harmoniza, difere dessa associação natural cujo centro é constituído pela casa (oikia) e pela família. O surgimento da cidade-Estado representa a adoção de uma nova esfera do humano, assim o homem recebeu: "Além de sua vida privada, uma espécie de segunda vida, o seu bios politikos. Agora, cada cidadão pertence a duas ordens de existência; e há uma grande diferença em sua vida entre aquilo que lhe é próprio (idion) e o que é comum (koinon)" (Jaeger, 1994: 111).
Para os gregos, a preocupação com o bem comum englobava o cuidadoso ethos social, ambiental e global. O zelo pelo relacionamento com os outros, o respeito pelo planeta e a valorização dos recursos naturais eram uma característica do oikos, modelo de vida desse povo. Para Hanna Arendt, o fenômeno se explica de certa forma pela separação entre discurso e ação: "Na experiência da polis, que, com alguma razão, tem sido considerada o mais loquaz dos corpos políticos, e mais ainda na Filosofia Política que dela surgiu, a ação e o discurso separaram-se e tornaram- se atividades cada vez mais independentes" (Arendt, 2001: 35).
O conceito da ética não pode permanecer restrito ao aspecto particular, singular, ou seja, precisa expandir-se e ir além da preocupação singular, tornando- se um conceito e uma ação relacionados ao todo. A conduta ética precisa estar de acordo com a preservação do oikos, ou seja, do meio em que vivemos porque, como afirmavam os gregos, as duas esferas da vida (privada e pública) devem estar em equilíbrio. Isso significa que na relação social não pode haver hegemonia da necessidade individual nem a supressão da individualidade pela força da coletividade. O singular não pode anular o comunitário e o comunitário não pode anular o individual.
Ao aplicarmos essa maneira de pensar sobre os problemas existentes em nossa sociedade, constataremos a tentativa de absolutizar o relativo, ou seja, implantar o reino do Relativismo. Se pensarmos assim, estaremos justificando todo o tipo de atrocidade em nome do respeito às diferentes manifestações humanas. Por outro lado, singularizar ao extremo o absoluto implicaria tentar abarcar a totalidade por meio de uma lei universal. Sabemos que isso resulta na exclusão da singularidade, o geral não abarca o específico.
Se permanecermos inertes diante da situação dos recursos naturais, receberemos respostas amargas da natureza. Por exemplo, podem ocorrer grandes incêndios florestais, aquecimento global, enchentes e secas, acidentes ambientais, quebras na produção agrícola e epidemias. Mas esse cenário pode ser evitado porque o ser humano possui a capacidade de, se educado for, valorizar o local em que vive. Porém, se não receber educação, acabará por destruir o equilíbrio tênue que existe entre o ethos e o oikos, ou seja, entre o conjunto de normas e reflexões que visam preservar o meio ambiente e a sua morada, o seu lar. Por isso, é preciso resgatar a educação que os gregos valorizavam tanto, isso para melhorar as nossas condições de vida.
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