A filosofia que se pensa e a prática Grandes pensadores como Sócrates, Platão e Aristóteles formularam grandes hipóteses para falar de relacionamento, mas suas vidas cotidianas eram bem diferentes
POR LÚCIO PACKTER
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| Sócrates e seus estudantes, por Johann Friedrich Greuter, retrata o grande alcance que o filósofo tinha sobre os jovens com seus discursos, bem diferente da realidade vivida por ele |
Nenhum deles conseguiu, aparentemente, com suas filosofias, tornar a própria vida melhor nos relacionamentos com seus próximos. Os três afirmaram no pensamento o que, em parte, evitariam depois na concretude do cotidiano. Mas isso não torna suas filosofias menores e também não deve ser esse o critério pelo qual usualmente nós as medimos, não se trata disso. A propriedade dessa afirmação está na observação que nos permite compreender que, às vezes, enquanto determinadas teorias são formuladas, seus autores não as podem viver porque as estão formulando e uma atividade pode não autorizar a outra; outra propriedade é que a Filosofia, em seus primórdios, buscou aproximar a explicação da compreensão, acarretando grandes perdas na possibilidade da vivência dos postulados, dada a incipiência dos métodos filosóficos. Uma terceira propriedade é que filosofar sobre o que se vive pode objetar a experiência tal qual ela se desenha por, por exemplo, o músculo cardíaco. Uma quarta propriedade, entre outras várias que deixarei para outro momento, é que seguidamente a cisão entre o que é vivido e o que é pensado produziu Filosofia consistente, como em Nietzsche.
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| Vênus, Marte e o Cupido, por Paris Bordone. Equivalente em Roma ao deus grego Eros, que é o deus do amor, o Cupido estava sempre pronto a disparar setas sobre o coração de homens e deuses, despertando amor e paixões. Filho de Vênus, a deusa da beleza, por quem era influenciado para agir maliciosamente, e de Marte, o deus da guerra, o que pode talvez sugerir a dicotomia entre amor e guerra |
Talvez por isso as palavras de Elias Canetti, na obra Massa e Poder, causem ainda dúvidas e inquietude quando ele afirma que: "Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido. Ele quer ver aquilo que o está tocando; quer ser capaz de conhecê-lo ou, ao menos, de classificá-lo. Por toda parte, o homem evita o contato com o que lhe é estranho. À noite ou no escuro, o pavor ante o contato inesperado pode intensificar-se até o pânico. Nem mesmo as roupas proporcionam segurança suficiente - quão facilmente se pode rasgá- las, quão fácil é avançar até a carne nua, lisa, indefesa da vítima.(...) Tal aversão ao contato não nos deixa nem quando caminhamos em meio a outras pessoas. A maneira como nos movemos na rua, em meio aos muitos transeuntes, ou em restaurantes, trens e ônibus, é ditada por esse medo. Mesmo quando nos encontramos bastante próximos das pessoas; mesmo quando podemos observá-las bem e inspecioná-las, ainda assim evitamos, tanto quanto possível, qualquer contato com elas. Se fazemos o contrário, é porque gostamos de alguém, e, nesse caso, a iniciativa da aproximação parte de nós mesmos".
Lúcio Packter é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS), é coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Universidade Moura Lacerda, em Ribeirão Preto (SP), e da Faculdade de Filosofia São Miguel Arcanjo, em Anápolis (GO). luciopackter@uol.com.br. PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2 | 3 | 4 |