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Filosofia  
       
 
 

 

A filosofia que se pensa e a prática
Grandes pensadores como Sócrates, Platão e Aristóteles formularam grandes hipóteses para falar de relacionamento, mas suas vidas cotidianas eram bem diferentes

POR LÚCIO PACKTER

Sócrates tinha uma conturbada relação com Xantipa, a esposa "megera" que tratava o pensador por "imprestável mandrião".

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O retrato ilustrado por Hans Baldung Grien, em 1513, mostra a amante de Aristóteles, Phyllis, submetendo-o a cavalgadas, bem ao contrário do que diziam seus tratados filosóficos, que abordavam a superioridade masculina e a mulher, um símbolo de passividade e não inteligência

Qual o crédito que você daria a um filósofo que discorresse sobre a ética nas relações em um mercado público, quando subitamente aparece aos gritos a mulher dele, a mesma mulher que, após ter jogado água suja na cabeça do filósofo, veio ter com ele para afirmar o imprestável mandrião que ele é? Ela fala sem parar. Ao notar uma certa indiferença dele, aos gritos, ela avança sobre o homem e rasga suas roupas. O filósofo pode não ter nada a ver com o destempero daquela criatura achaparrada, mas a propensão para suas palavras talvez nos faça perguntar se de fato valeria ouvir aquele sujeito que há pouco nos impressionava vivamente com sua conversa sábia, que partia de exemplos simples, tirados de ferreiros e curtidores, para nos enredar em elementos que faziam questionar a nossa maneira de viver.

O alcance que Sócrates tinha sobre jovens como Alcebíades não era parente do que acontecia com seus filhos e com sua mulher, Xantipa, provavelmente. O que funcionava bem em feiras e praças não parecia surtir o mesmo efeito em casa.

Alguns filósofos encontramos com pequena procura. Não costuma ser o caso de Sócrates. O filho da parteira Fenarete nos chega principalmente por Platão e Xenofonte. Mas o encontramos em fragmentos em Íon de Quios, Aristóxenes e de outros. Um nariz aplanado, a barriga proeminente, os olhos saltados, nada tinha a ver com os padrões estéticos de sua época. Não cobrava pelo trabalho que fazia.Em cada aspecto de sua vida, o filósofo parecia andar ao contrário do usual.

"Em todo o caso, casai-vos. Se vos couber em sorte uma boa esposa, sereis felizes; se vos calhar uma má, tornar-vos-eis filósofos, o que é excelente para os homens". SÓCRATES

Mesmo com suas reservas à política, por volta de 405 a.C., fez parte do conselho legislativo de Atenas. Logo teve um sério embate com a dinastia dos Trinta Tiranos, que governava a cidade.

O poeta polonês Julian Tuwim, do grupo Skamander, em seus versos coloquiais costumava provocar a sociedade na qual vivia. Em 1920, publica Sócrates dançando, atualizando Cícero e nos mostrando que houve um elemento de humor que como historiadores esquecemos. Mas Tuwin estava escrevendo segundo os favores de um estilo, não de um argumento histórico. Ainda assim, não deve ter sido longe disso o modo como Sócrates se encontrou no conselho legislativo.

SABER E SER IGNORANTE

Não há Filosofia enquanto o indivíduo não deixa as estrelas na distância na qual vivem e se ocupa de suas próprias coisas, por estrelas que sejam. Assim é para Sócrates. Tudo nos leva a crer que ele, de fato, buscava uma verdade que surgisse, em geral belicosamente, de seu método indutivo. Nós o encontramos com a juventude de Lísias, com as liberdades de Protágoras, de Górgias também, com o arranjo de comandos de Laques (militar). Na indecisão dos argumentos, na fraqueza do discurso, Sócrates crescia. Em Mênon temos um arrojado exemplo de Filosofia e uma desculpa para o paradoxo que até hoje nos acompanha em muitos casos: saber e ser ignorante.

Reencontramos Sócrates em longas páginas dos autores de hoje. Atualizado, sério, prostrado, aflito, sereno, esperançoso, contrito, de tudo um pedaço. Em A montanha mágica, Thomas Mann, é um exemplo quando escreve que: "Dois dias de viagem apartam um homem - e especialmente um jovem que ainda não criou raízes firmes na vida - do seu mundo cotidiano, de tudo quanto ele costuma chamar seus deveres, interesses, cuidados e projetos; apartam-no muito mais do que esse jovem imaginava enquanto um fiacre o levava à estação. O espaço que, girando e fugindo, se roja de permeio entre ele e seu lugar de origem, revela forças que geralmente se julgam privilégio do tempo; produz de hora em hora novas metamorfoses íntimas, muito parecidas com aquelas que o tempo origina, mas em certo sentido mais intensas ainda. Tal qual o tempo, o espaço gera o olvido; porém o faz desligando o indivíduo das suas relações e pondo-o num estado livre, primitivo; chega até mesmo a transformar, num só golpe, um pedante ou um burguesote numa espécie de vagabundo. Dizem que o tempo é como o rio Letes; mas também o ar de paragens longínquas representa uma poção semelhante, e seu efeito, conquanto menos radical, não deixa de ser mais rápido".

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