O filósofo do Brooklyn A relação do cinema com a Filosofia nos filmes do nova-iorquino Woody Allenol
POR FLÁVIO PARANHOS
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| O cineasta estadunidense em cena da comédia Scoop, o grande furo, de 2006, em que ele faz o papel de um mágico, lançado pela Focus |
Não há como tratar das relações entre cinema e Filosofia sem correr o risco de defender algumas teses. Cinema é arte e será tanto mais arte quanto mais filosófico for. Há diferentes maneiras do cinema ser filosófico. A mais comum delas é a acidental. Um filme absoluta e sinceramente despretensioso pode despertar no espectador o espanto típico do indivíduo que filosofa. Dependendo da erudição desse espectador, o espanto virá contaminado de referências bibliográfi- cas, o que nos traz à primeira e mais comum associação entre cinema e Filosofia, o uso como arma de ilustração de teses filosóficas.
É arte o cinema que não faz concessões (ou, se as faz, será o mínimo necessário para sobrevivência). Será filosófico todo cinema-arte?
| Este texto introdutório abre o segundo volume da Coleção Filosofia & Cinema, livro da Nankin Editorial, analisando a obra cinematográfica do diretor estadunidense Woody Allen, a ser lançado no segundo semestre. |
O que tem Arnold Schwarzenegger a ver com Descartes? Ou Steve Martin com Platão? Ou Frank Sinatra com Santo Agostinho? Por espúrias que pareçam à primeira lida, tais associações foram feitas, respectivamente, por Mary M. Litch1, Christopher Falzon2 e Juan Antonio Rivera3, para ilustrar o ceticismo cartesiano (Total Recall, O Vingador do Futuro, 1990), a metafísica platônica (All of me, Um espírito baixou em mim,1984) e as confissões agostinianas (The man with the golden arm, O homem do braço de ouro, 1955). São associações acidentais na medida em que os autores desses filmes certamente não tiveram a intenção de estabelecê- las. O que por certo não lhes tira a validade. Se uma comédia romântica bobinha, feita com o único objetivo de entreter, ou um filme de ação estúpido, repleto de lutas e perseguições de carros (como Matrix, por exemplo) suscitam indagações filosóficas, tudo bem.
A essa altura o leitor terá identificado a inevitável armadilha na qual eu caí e da qual é preciso sair pra seguir adiante. Diz respeito ao conceito de entretenimento e sua relação com a arte. Numa entrevista ao Performing Arts Journal, em 1977, Susan Sontag responde à questão sobre haver uma hierarquia da arte, a que dá prazer e a que faz pensar, de forma brilhante: pensar é uma das formas de prazer4. Ora, o conceito de entretenimento varia muito, embora seja verdade que há um certo gosto médio relativamente previsível e a partir do qual decisões holywoodianas são tomadas. Pensar não é uma forma de prazer com muito ibope hoje em dia. Algumas pessoas inclusive são explícitas: vão aos cinemas e teatros para relaxar, e não para pensar.
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| Cena do filme Noivo neurótico, noiva nervosa, de 1977, que conta a história de um divorciado humorista judeu, que faz análise há quinze anos, que se apaixona por “Annie Hall” (título original), uma cantora em início de carreira e com uma cabeça um pouco complicada |
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