editora Escala
 
Filosofia  
       
 
 

 

A liquidez do homem pós-moderno
Para Bauman, os valores da sociedade ocidental cada vez mais diluídos cerceiam a tolerância e o relacionamento

POR RENATO NUNES BITTENCOURT

A necessidade mais profunda do ser humano é a de superar seu
estado de separação em relação ao outro, deixando assim a prisão de sua solidão

Ora, como a busca por segurança pode ser algo insano? De fato, parece uma idéia paradoxal, mas é tal comportamento que impera na nossa sociedade pós-moderna. De tanto vislumbrarmos a criação de mecanismos infalíveis de defesa perante o outro, o desconhecido, acabamos por desenvolver afetos reativos, medos, ou seja, a própria insegurança pessoal diante do mundo que nos circunda. O mal pode estar oculto em qualquer lugar, não se pode confiar em ninguém. Conforme salienta Bauman, grande parte do capital comercial pode ser e é acumulado a partir da insegurança e do medo (Tempos Líquidos, p. 18).

HUTTERSTOCK
Nos sentimos seguros apenas quando somos vigiados a cada instante e se um grande muro de concreto nos isola da realidade externa. Permanece sempre uma atmosfera de insegurança no ar, pois, apesar de todos os recursos técnicos para nos proteger que possuímos, fica ainda essa tensão diante das ameaças externas

Uma nova estética da segurança modela todos os tipos de construção e impõe uma nova lógica de vigilância e distância. Se uma casa ou um prédio público não é ornado com grades nem possui câmeras de monitoramento, eles não nos inspiram a menor confiança. Somente nos sentimos seguros se somos vigiados a cada instante e se um grande muro de concreto nos isola da realidade externa. Permanece sempre uma atmosfera de insegurança no ar, pois, apesar de todos os recursos técnicos para nos proteger que possuímos, fica ainda essa tensão diante das ameaças externas. Talvez mesmo que permanecêssemos numa redoma hermeticamente fechada, a dúvida diante do desconhecido ainda nos afetaria. Como é possível vivermos assim?

As práticas amorosas também ref letem essa tendência de esvaziamento da interatividade humana, pois a nova ordem é apenas usufruir aquilo que o outro nos oferece, para que possamos em seguida descartá-lo sem qualquer peso na consciência. O complexo de Don Juan vigente na cultura mega-hedonista em que vivemos, longe de significar uma plena afirmação da condição amorosa e da própria sexualidade de uma pessoa, na verdade manifesta a sua pobreza existencial e a sua incapacidade de satisfazerse plenamente através da sua relação sentimental com o outro. Podemos dizer que a relação amorosa genuína desvela o espírito de alteridade entre duas pessoas, que se compreendem e se valorizam enquanto expressões subjetivas singulares. A necessidade mais profunda do ser humano é a de superar seu estado de separação em relação ao outro, deixando assim a prisão de sua solidão. Erich Fromm, que exerceu notável inf luência sobre Bauman, diz que "se eu amo o outro, sinto-me um só com ele, mas com ele como ele é, e não na medida em que preciso dele como objeto para meu uso" [A arte de Amar, p, 35].

Já as práticas líquidas do "amor" representam uma transposição da lógica consumista para o âmbito das relações humanas, pois o propósito maior é obter o máximo possível de contatos sexuais, em detrimento da qualidade e da profundidade das vivências. Nesse processo de degradação da experiência amorosa, o mais importante é aumentar cada vez mais o catálogo de nomes das "conquistas", tudo em nome da soma de prazeres sensoriais, que, todavia, nunca satisfazem os desejos do fragmentado homem da pós-modernidade. Um desejo, sendo realizado, não gera um estado de satisfação duradouro na afetividade do indivíduo, levando-o então a correr atrás de novas conquistas, que servem de estímulos fortes para a manutenção de sua frágil sanidade psíquica. Esse processo de busca desenfreada por novas conquistas ocorre muitas vezes por uma necessidade narcisista do indivíduo adquirir reconhecimento diante dos seus "amigos" e de sua própria sociedade, caracterizando assim a falsa imagem de que o homem pretensamente bem sucedido sexualmente é feliz.

O AMOR PLATÔNICO
Os gregos antigos dizem que o ser humano experimenta, basicamente, três formas de amor: Eros, que está centrado na dependência dos parceiros; Filos , que se baseia na segurança; Ágape, o amor incondicional. O amor é temática comum dentre os filósofos gregos. Para Platão, o amor era o desejo de algo que não se possui. Contudo, o termo amor platônico, que designa um amor ideal, ou algo impossível de realizar, não espelha uma interpretação da Filosofia de Platão, que trata de uma realidade essencial.

Do momento em que o bem-estar genuíno proporcionado pelo amor, para ser alcançado, requer essa interação sincera entre duas partes distintas, a tendência egoísta de utilizar-se o outro como meio de obtenção de prazer conduz a um processo de reificação da condição humana, diluída na sua própria evasão axiológica. Isso não significa uma apologia da existência de um amor eterno, mas sim a necessidade de que o sujeito contemporâneo possa participar de um relacionamento movido pelo propósito de, mediante a capacidade de proporcionar bons afetos ao seu parceiro amoroso, recolher a partir daí a sua felicidade. O tipo egoísta é incapaz de amar o outro, mas tampouco é capaz de amar a si mesmo. O que o egoísta supostamente venera em si mesmo é a máscara social que ele utiliza como instrumento de fuga de si mesmo, de sua própria pobreza existencial. Para Bauman, "Nos compromissos duradouros, a líquida razão moderna enxerga a opressão; no engajamento permanente percebe a dependência incapacitante" (Amor Líquido, p. 65).

PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2 | 3 | Próxima >>

 

 

 

 

Assinaturas
 
Assine as publicações do núcleo Ciência & Vida.
Matérias, novidades acadêmicas, reportagens e muito mais.
Filosofia História historia Psique
 
Edição nº 95
SUMÁRIO DA EDIÇÃO
MATÉRIA DE CAPA
REPORTAGENS
O QUE É FILOSOFIA?
EDIÇÕES ANTERIORES
EXPEDIENTE
FILOSOFIA
LEITURAS DA HISTÓRIA
PSIQUE
SOCIOLOGIA
AGENDA
ARTIGOS
Busca
Buscar
 
 
Newsletter
Cadastre-se e fique atualizado diariamente com nosso conteúdo.
  OK
 
 
Institucional
Publicidade
Adicionar Favorito
Links Úteis
 
 
Legenda
O acesso ao conteúdo do portal Ciência&Vida é identificado por cards.
Assinante
Cadastrado



Faça já a sua assinatura!

Psique

Desvende a mente humana

Assine por 1 ano
12x de R$ 9,80
Assine!
Outras ofertas!

Sociologia
Um olhar sobre o mundo que no para.

Assine por 2 anos
12x de R$ 9,80
Assine!
Outras ofertas!

Filosofia

Pensamentos universais de forma objetiva e sem complicaes.

Assine por 1 ano
12x de R$ 9,80
Assine!
Outras ofertas!

Leituras da Histria

Fatos e personalidades que deixaram suas marcas.

Assine por 1 ano
12x de R$ 9,80
Assine!
Outras ofertas!


  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS