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O canto das SEREIAS e o enigma em akousma
A essência da Paidéia pitagórica invocando o sentido enigmático e mítico das Akousmata - palavra grega que signifi ca "coisas ouvidas" - para refl etir sobre a estética fi losófi ca do pitagorismo, que consistia na educação dos sentidos por meio da audição

POR MARIA HELENA FRANCA NEVES

A harmonia, objeto de investigação deste estudo, é, na tradição helênica, um elemento órfico, representado no Olimpo como atributo de Apolo. Pitágoras, cuja sabedoria estende-se a todos os domínios, tanto do conhecimento, como da religião, da estética e ao da ética, utiliza dois caminhos para a aquisição do conhecimento e purificação da alma: o caminho da Matemática, como exercício da sabedoria e o caminho das Akousmata (coisas ouvidas) para a libertação do espírito pela educação dos sentidos, especialmente o da audição que viria a ser para Pitágoras o caminho de abertura à percepção.

Os adeptos do pitagorismo deviam passar por um período de iniciação que durava de dois a cinco anos, durante o qual se submetiam as várias provas. Uma delas era a prova do silêncio. J. Barnes cita Plutarco (Questão de Convivas, 728 E) para dizer que Empédocles, que foi segundo Pausânias, um pitagórico, “aconselha, à maneira pitagórica, a guardar suas doutrinas em uma mente silenciosa; e, em geral, esses homens consideram divino o silêncio”. (BARNES, 1997, 189). Em Platão a infl uência Pitagórica pode ser localizada, por exemplo, em Fédon, em que o platonismo destaca a idéia da virtude como purificação. O caminho da mudança será, portanto, desde a Antiguidade, o caminho do suprimento de uma falta é o caminho do desejo de transformação, de transmutação. O silêncio como uma potência da vontade seria um determinante do ser em busca do amor à sabedoria, (Filosofia – Filósofo): esse seria um dos princípios esotéricos do pitagorismo, levando Pitágoras a cunhar a palavra Filosofia.

As Akousmata representam o caminho da mudança, do desejo, da vontade de transmutação, guardando em sua origem a Paidéia clássica, que compreende a associação da Ética e da Estética na instrumentação das técnicas de produção não só das coisas, mas do comportamento belo, perfeito. O noviço pitagórico submetido à prova do silêncio, como função metodológica das Akousmata, limitava-se a ouvir o mestre e nem para pedir qualquer explicação quebrava a prova. Eles eram chamados de akousmatikoi, (os que aprendem por meio de Akousmata). O ensinamento dessa prova era transmitido através de regras, máximas ou provérbios, muitos deles guardando superstições do período proto-helênico e que podem ser inseridos no rol de verdadeiros objetos de civilização. Já no século IV, os aforismos eram objetos de eruditas interpretações.

O mito que em muitos deles subsistia – sob forma lírica ou poética – torna-se instrumento da educação moral e estética, pelo refinamento da percepção sensível. Mais tarde, Aristóteles vai retomar a atenção com a educação dos sentidos, que será objeto de estudo em seu tratado sobre a alma. Porém, é com Pitágoras que se dá início, na história do pensamento, o desenvolvimento da educação das sensações, colocando em prática as funções do que vem a ser o nome Estética.

Pitágoras é uma presença constante na Filosofia,
relacionado que está à etimologia dos termos Filosofia e Filósofo

Nas escolas da Grécia clássica (séculos V e IV) as crianças, desde muito cedo, aprendiam e decoravam os poemas homéricos, e o professor retirava deles máximas e preceitos de conduta, pois a refl exão tinha como sentido a humanização dos deuses. Ao contrário das antigas teogonias que consistiam em narrativas do período arcaizante da Grécia1, girando em torno de sombrias lutas cósmicas, em que triunfava a força brutal, os poemas homéricos ou a tragédia grega não são uma simples narrativa, mas uma espécie de meditação sobre um determinado episódio. Esta meditação apresenta-se sob a forma lírica, pois, ao contrário da epopéia, que favorece a ação, o lírico é estático, refl exivo.

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Escultura do filósofo e matemático grego Pitágoras. Foi ele quem desenvolveu significado simbólico do número 4 (tetratkys), provavelmente referindo-se aos quatro elementos constituintes do cosmos (fogo, ar, água e terra)

Em geral, toda akousmata tem sua fonte na plasticidade evolutiva dos mitos. Grimal, que indica como a refl exão sofística utilizou a mitologia, observa que, mesmo quando a partir do século III a.C. o pensamento grego ficou cada vez mais dominado pela Filosofia, os mitos não escaparam a essa evolução: “Os Estóicos, por exemplo, pedemlhes uma revelação sobre a natureza do mundo. Para eles, o mito é apenas uma forma velada e simbólica das verdades racionais. Zeus não é o conquistador, o vencedor dos Titãs. É o princípio abstrato da Razão, primeiro motor e fim último, o Ser em si, e os episódios míticos do seu ciclo não são considerados senão como os momentos dialéticos do devir universal. E, como a refl exão estóica tende, cada vez mais, a alcançar uma concepção monoteísta, Zeus toma um lugar cada vez mais importante, em detrimento de outras divindades. Etimologias fantasistas vão em socorro dos filósofos. Se Zeus é a Luz, Hera (....), é o Ar, e a física estóica explica como a união da Luz isto é, (do Fogo plasmador) e do Ar é geradora de vida. Aos olhos dos Estóicos, a mitologia surge como um imenso ´´número das coisas´´ que compete aos filósofos decifrar.” (GRIMAL, 1973, 137,8).

Peter Gorman recolheu de Jâmblico a seguinte descrição das akousmata: “(...) A filosofia dos acusmáticos consiste de akousmata não demonstradas e tampouco explicadas, que são normas de conduta. Há também outras akousmata que são ditos de Pitágoras. Os acusmáticos procuram preservar esses ditos como declarações divinas; eles não reivindicam para si nada de novo a ser dito, nem supõem que isso seja necessário. Ao contrário, consideram aqueles que aprenderam um número maior de akousmata como membros mais inteligentes de seu grupo.” (GORMAN, 1995,93).

Jâmblico vai distinguir três características das akousmata: a) definições; b) definições superlativas; c) normas de conduta moral, sob forma enigmática. De acordo com essas categorias, umas indicariam “o que uma coisa é, outras o que é mais importante, outras o que se deve ou não fazer” : “Exemplos da primeira categoria: quais são as ilhas dos

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Pitágoras dá início, na história do pensamento, ao desenvolvimento da educação das sensações, colocando em prática as funções do que vêm a ser o nome Estética, Filosofia que refl ete sobre a beleza sensível. Na imagem, o belo segundo Michelangelo, na escultura de Davi, realizada durante o período do Renascimento

bemaventurados? O Sol e a Lua. Qual é o oráculo de Delfos? O tetraktys ou, mais exatamente a harmonia em que cantam as Sereias. Alguns exemplos de definições superlativas são os seguintes: o que é mais justo? O sacrifício. O que é mais sábio? O número; há uma segunda resposta para esse enigma: aquilo que dá nome aos objetos. Qual é a nossa criação mais sábia? A medicina. Qual é a beleza suprema? A harmonia. Qual é o poder supremo? O juízo. O que é melhor que tudo? A felicidade. Qual é a declaração mais verdadeira? Os homens são maus. Por esse motivo, os pitagóricos dizem que o poeta Hipodamas exaltou o poeta anônimo de Salamina, que escreveu: ‘’Deuses, de onde viestes? E por que fostes criados? Homens, de onde viestes? E por que sois tão maus?’’ (apud GORMAN, 93).

P. Gorman assinala que algumas das akousmata foram interpretadas na Antiguidade, de modo notável, por Aristóteles, mas a maior parte ainda permanece indecifrável, e observa: “Pode-se compreender porque os sâmios ficaram tão irritados com esse método de ensino simbólico que mais parece um conjunto de charadas infantis Como os gregos de sua época não tinham sido instruídos nas ciências arcanas do Egito e da Babilônia, deviam se parecer com crianças aos olhos de Pitágoras, que, desse modo, procurou estimular-lhes a curiosidade por meio desses engimas. Os pitagóricos subseqüentes nunca deixaram de escrever desse modo enigmático a fim de manter suas doutrinas em segredo. A exemplo desses escritores pitagóricos, como Filolau, Platão também apreciava incluir em suas obras questões intrincadas. Seu diálogo pitagórico Timeu acha-se repleto de declarações misteriosas. Os pitagóricos podiam assim publicar suas obras, mas apenas os iniciados poderiam entendê-las.” (Id. Ibid, 94).

Segundo a tradição doxográfica, Pitágoras foi o primeiro grego a usar o termo “cosmos”,(χοσμοξ)2, expressão representativa do mundo como um todo, dando início a uma fase de refl exão, a fim de desvendar um significado para o processo de mudança no interior do universo. O cosmos era, para Pitágoras, uma vasta razão harmônica: “O universo é um Todo bem ordenado, um Cosmos, cujas partes estão unidas entre si por nexos de harmonia.” (Diógenes Laércio, VIII, 12). Assim, com Pitágoras inicia-se a fase da Cosmogonia superando a Teogonia e prenunciando a Cosmologia.

Pitágoras empreendeu a procura da regularidade e permanência no interior do cosmos, daquilo que não teria princípio nem fim, ou seja, partindo do princípio de que a matéria que está em constante mudança é mortal e perecível, com isso, ao pensar que a verdadeira substância é a alma, em sua essência imortal, como radicalmente distinta do corpo, Pitágoras anuncia a pura Filosofia do espírito e será com ela que vai desvendar o mistério da sonoridade.

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