ESPECIAL KARL MARX TEORIA E PRÁXIS DE UM GÊNIO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Em um momento em que o capitalismo atinge mais uma crise, e cogita-se um sistema mais justo e igualitário, as idéias do filósofo alemão reassumem a sua aspiração prática
POR VÂNIA NOELI FERREIRA DE ASSUNÇÃO
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| Foto do filósofo registrada em 1875. No seu túmulo, no cemitério Highgate, em Londres, está inscrita a seguinte frase: "os filósofos interpretaram o mundo de várias maneiras, mas o ponto é mudá-lo" |
A anedota contada pelo filósofo húngaro Mészáros adapta-se perfeitamente a fenômenos recentes ocorridos no mundo afora: o descarte da obra de Marx. Karl Marx foi considerado recentemente, por leitores de um grande veículo de comunicação, o filósofo mais influente de todos os tempos; ao mesmo tempo, nenhum outro foi tantas vezes dado como morto - o que só prova sua vitalidade, mesmo contra a vontade de seus inimigos.
Marx também sofre com seus autodenominados partidários, pelos quais tem sido impiedosamente mutilado - por exemplo, com a artificial separação entre "jovem Marx" e "Marx maduro"; com a negação da interdependência entre teoria e prática; e, por conseguinte, com o descarte da parte "morta" de sua obra, a ontologia do trabalho, e manutenção da parte "viva", o método dialético, que seria aplicável principalmente a questões culturais, para ficar apenas com algumas situações. O estino trágico de seu pensamento só é comparável à dureza de sua vida. Veremos adiante como viveu, onde nasceu e o que produziu.
Até quase o final do século XIX o país onde nasceu Marx não havia se unificado: usa-se o termo "Alemanha" nesse período para se referir a 38 pequenos Estados (ducados, principados e outros) onde vigorava um verdadeiro "absolutismo em miniatura". Muitos destes Estados ainda mantinham suas próprias leis civis, impostos e moedas, sistema de pesos e medidas e fronteiras aduaneiras. Esta fragmentação era um obstáculo ao desenvolvimento econômico, mas também ao político, pois, além de os pequenos Estados se tornarem joguete dos grandes, seus soberanos lutavam ferrenhamente para se manter no poder e, para tanto, opunham-se decididamente a todo progresso. Esta situação diferenciava o país da Inglaterra e da França, cuja unificação, com a constituição das monarquias nacionais, ocorreu lado a lado com a dissolução da ordem feudal, num processo secular.
"Alguns anos atrás, a revista Time colocou em sua capa o busto de Marx com a inscrição 'Marx está morto', assinado 'Os novos filósofos franceses'. Isso me lembrou do que ocorrera muitos anos antes no Salão da Fama da Universidade de Viena, onde o busto de Nietzsche portava a inscrição 'Deus está morto', assinado 'Nietzsche'. Certo dia, outra inscrição apareceu abaixo da original. Dizia: 'Nietzsche está morto. Deus'."
István Mészáros,
O poder da ideologia |
Durante boa parte do século XIX aquele era um país ainda rural, dominado pelos Junkers -aristocratas que compunham os altos escalões da poderosa burocracia prussiana e do exército. Seu desenvolvimento capitalista, embora fi- zesse progressos, era atrasado, ganhando fôlego apenas na segunda metade do século, principalmente no último quartel. As classes sociais típicas do capitalismo ainda eram incipientes. A burguesia se associara aos representantes da antiga ordem na manutenção dos privilégios feudais, somados às vantagens da indústria. Formando-se num momento histórico em que já estavam claras as contradições com o proletariado revolucionário nos países europeus mais avançados, renunciara à revolução e ativera-se apenas às tarefas burguesas clássicas de talhe econômico (unidade monetária, liberdade profissional e de circulação etc.). A pequena burguesia urbana estava dispersa e não tinha organicidade, voltada que estava para seus interesses locais.
O proletariado também era apenas incipiente e tinha pouca coesão teórica. As amplas camadas camponesas eram submetidas a uma acentuada exploração semifeudal e à ausência de manufaturas as impedia de se tornarem proletárias. Na Europa como um todo, seria nos anos de 1840 que o proletariado, que até então era guiado pela burguesia nas lutas revolucionárias, realizaria suas primeiras lutas autônomas e coerentes e caminhava para a aproximação teórico-ideológica com o socialismo. Na Alemanha, porém, o proletariado ainda não tinha tido condições de formar organizações independentes e a forte censura e a proibição de reuniões políticas pioram o quadro.
Com isto, não houve revolução burguesa na história alemã, em que a antiga ordem foi desmontada de forma conciliada e que a nova ordem se impôs sem nuanças liberal-democráticas. A própria burguesia, como mencionado, abriu mão de seu domínio político para instituir um mundo economicamente capitalista sem os percalços da participação das massas. Por isso o filósofo húngaro Georg Lukács afirmava que, enquanto a Europa se desenvolvia, "na Alemanha, se mantém em pé tudo o que há de miserável nas formas de transição da Idade Média à época moderna" (Lukács, 1972, p. 29). Acrescente-se ao quadro o domínio exercido pela Prússia reacionária.
ABREVIAÇÕES USADAS PARA DESIGNAR OBRAS OU TEXTOS DE KARL MARX
18BLB - O 18 Brumário de Luís Bonaparte
CFDH - Crítica do direito do Estado de Hegel
CRJ - Cavaignac e a Revolução de Junho
GCF - A guerra civil na França IA - Ideologia alemã
ICFDH - Introdução - Crítica da filosofia do direito de Hegel
LCF - Lutas de classes na França de 1848 a 1850
MC - Manifesto comunista
MEF - Manuscritos econômicofilosóficos
MF - Miséria da filosofia
SF - A sagrada família ou crítica da crítica crítica |
A cidade de Trier, onde nasceu Karl Marx, entretanto, era diferente. A Renânia, região na qual estava inserida, havia feito parte da República Francesa, ocupada que fora por Napoleão (1794), até que a Restauração (1815) a devolveu à Prússia. Muitas das novidades que a Revolução trouxera, como o Código Civil, foram introduzidas lá. Além disso, o Vale do Reno era bastante desenvolvido economicamente e sua burguesia tinha caracteres liberais, reivindicava maior participação política e tinha sérias reservas em relação ao governo prussiano, o que fez dela representante dos burgueses da Prússia e de toda a Alemanha.
Se em termos econômico-sociais a Alemanha mantinha-se na retaguarda do desenvolvimento social europeu, na filosofia alemã eram debatidos os mais importantes temas da época. De fato, na ausência de classes sociais desenvolvidas, as grandes lutas ali se davam no âmbito teórico. Mais: descolada das condições sociopolíticas atrasadas (ou seja, sem ser cotejada com a realidade) e sem bases sociais sólidas, aquela filosofia avançava matizes fortemente especulativos. Os filósofos mais importantes viam-na como a verdadeira origem e o motor da história - a qual estaria, ou deveria estar, submissa às suas determinações. Avaliando que, a partir da Revolução Francesa, o indivíduo estava emancipado, os filósofos idealistas acreditavam que a atividade racional e livre deste era o centro da história.
Georg W. F. Hegel (1770-1831) era, de acordo com Marx, a mais alta expressão da filosofia alemã daquela época, cujos principais temas debatia. Seu pensamento se tornara o grande centro da vida intelectual alemã, e no período entre 1831 (ano de sua morte) e as Revoluções de 1848 a grande questão alemã dizia respeito à sua herança. Sua obra era reivindicada por dois grandes grupos, um à sua direita e outro à sua esquerda - ambos quebravam o sutil equilíbrio em que ele se mantivera, levando às últimas conseqüências sua filosofia. A grande discussão tinha como nódulo central a determinação hegeliana segundo a qual "o racional é real; o real é racional". Um grupo, ortodoxo, enfatizava o aspecto conservador da assertiva, buscando associar o existente ao racional, identificado com a sociedade e o Estado prussianos. Tornava Hegel um apologeta do existente e explorava em seu pensamento aspectos dúbios que forçavam uma identificação entre racional (processual) e real (contingente) que ele não apregoava. Esta corrente de direita explorava o sistema hegeliano, cuja maior expressão era seu logicismo. Hegel tomava a história como um processo lógico do desenvolvimento do Espírito no qual este vai tomando consciência de sua liberdade. Em última instância, esta percepção leva a uma teoria do fim da história, que é a reconciliação do Espírito com a realidade histórica por meio da racionalidade sediada no Estado.
| ROUSSEAU E VOLTAIRE NUMA PESSOA SÓ |
Karl Heinrich Marx (1818-1883) nasceu em Trier, na Renânia, filho de uma família de classe média de judeus convertidos ao protestantismo. Ingressou na Universidade de Bonn em fins de 1835, para estudar direito. No ano seguinte, porém, transferiu-se para Berlim, para evitar o ambiente de pândega que se vivia em Bonn, passando a se dedicar principalmente à Filosofia.
Em Berlim, Marx sofreu a influência decisiva dos neo-hegelianos, a nova geração dos seguidores de Hegel que debatia suas obras com os hegelianos ortodoxos. Defendeu uma tese doutoral sobre as Diferenças da filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro, com a qual pretendia uma vaga como professor universitário. No entanto, o governo prussiano aprofundou a repressão contra os jovens hegelianos e destituiu seu amigo Bruno Bauer da cátedra universitária, com o que lhe tirou uma importante influência na universidade, impedindo- o de seguir carreira acadêmica.
Assim, em 1842, tornou-se jornalista e, depois, redator-chefe da Gazeta Renana, jornal da burguesia liberal da região do Vale do Reno. No ano seguinte, entretanto, o jornal teve sua circulação proibida pela censura. Marx, então com 24 anos, aproveitou a pausa para se casar com sua noiva de longa data, sua bela amiga de infância Jenny von Westphalen, de uma alta família de Trier. Na mesma época do casamento iniciou sua viragem decisiva em direção ao comunismo, afastando-se da herança idealista dos neohegelianos. O recrudescimento da repressão e a ausência de meios de vida na Alemanha levou-o a exilar-se na França, onde teve contato estreito com diversas correntes socialistas e com o movimento operário mais organizado da Europa. Em 1844, Marx conheceu Engels, com quem teve uma amizade sólida e com quem escreveria algumas obras significativas. Após as Revoluções de 1848, emigrou definitivamente para a Inglaterra, vivendo durante vários anos como publicista. Nesta tarefa, escreveu sobre temas da história contemporânea que vão das crises capitalistas às guerras, dos Estados Unidos à Índia, das reivindicações de sufrágio universal às pendengas bonapartistas de Bonaparte III. Também foi fundador da Associação Internacional dos Trabalhadores e acompanhou de perto o movimento operário internacional. Durante muitos anos, na Inglaterra, tocou "o fundo da miséria burguesa", endividado e doente. Morreu em Londres, no exílio.
Marx e Jenny tiveram cinco filhos: Franziska, Edgar, Eleanor, Laura e Guido, além de um natimorto. Franziska, Edgar e Guido tiveram vida breve: morreram ainda na infância, em meio às grandes dificuldades materiais que a família Marx experimentava. A morte dos filhos foi um duro golpe para Marx, especialmente a de Edgar. Conforme escreveu a Lassalle, "Bacon diz que os homens verdadeiramente importantes têm relações tão diversas com a natureza e com o mundo, tantos objetos prendem seu interesse, que lhes é fácil esquecer a dor de qualquer perda. Eu não sou desses homens importantes. A morte de meu fi- lho abalou profundamente meu coração e meu cérebro e sinto a perda com a mesma intensidade do primeiro dia".
Karl Marx assombrava os contemporâneos por sua inteligência aguçada, seu estilo, sua extrema capacidade analítica. Dono de uma verve vigorosa, recorria freqüentemente à reductio ad absurdum [redução ao absurdo] para provar as últimas conseqüências de um argumento. Também se valia com extrema capacidade de metáforas brilhantes e elucidativas. Para entender qualquer assunto, até mesmo uma doença de Engels, mergulhava em estudos aprofundados e sempre insistia em que precisava ler mais e mais. Seu pai o admirava profundamente, mas dizia temer seu espírito "demoníaco" e "faustiano". Moses Hess, eminente jovem hegeliano, assim o descreveu em 1841, quando Marx se aproximou do Clube dos Doutores e passou a ser o centro desta agremiação: "Deves preparar-te para conhecer um muito grande, se não único, filósofo autêntico da nossa época (...) O doutor Marx, assim se chama o meu ídolo, é ainda um homem muito jovem (tem uns 24 anos), que dará o golpe de misericórdia na religião e na política medievais; alia a mais profunda seriedade filosófica ao humor mais fino; pensa em Rousseau, Voltaire, Holbach, Lessing, Heine e Hegel, reunidos numa só pessoa - digo: reunidos e não misturados - e terás o Dr. Marx". |
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