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FILOSOFIA DA VILA - A SUPERFICIALIDADE DA PAIXÃO NO MUNDO CONTEMPORÂNEO
A convidada desta edição do Café Filosófico, Josy Panão, falou da diferença entre o amor a e paixão nas relações da pós-modernidade

Da redação

"Apaixonar-se é perder-se no outro".  Esse foi a mola propulsora da reflexão de Josy Anne Neves Panão, graduada em Filosofia pelo Centro Universitário São Camilo e pesquisadora do Instituto de Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, a nossa convidada da edição de julho do Filosofia na Vila*, que abordou o tema Superficialidade e paixão no mundo moderno.  Acompanhada pelo presidente do Instituto Prolíbera, Josef David Yaari e por Mônica Aiubi, Filósofa Clínica e Mestre em Filosofia pela UFSCAR, o debate abordou a diferença do amor e da paixão, os pontos positivos e negativos de "perder-se no outro", e sobre os moldes pré-estabelecidos de relacionamentos, que podem atrapalhar na busca de uma vida a dois. Acompanhe na íntegra o Filosofia na Vila.

 

 

* O Filosofia na Vila é um café filosófico promovido mensalmente pela revista Filosofia Ciência e Vida, juntamente com o Instituto ProLíbera, e aborda temas relacionados aos artigos publicados na revista. O evento faz parte da Agenda Brasil Permanente, do Ministério da Educação (MEC), que visa, dentre outras ações, promover a cultura e a educação nacional.

 Os cafés acontecem na Livraria da Vila. A edição de agosto acontecerá na quarta-feira, dia 20, e vai abordar A arte como metáfora da vida. Mais informações pelo e-mail filosofia@escala.com.br.

 

Da redação

 

Meu nome é Josy. Eu acabei de me formar em Filosofia, fui orientanda da Mônica e desenvolvi uma pesquisa no meu trabalho de conclusão de curso, onde eu discuto um pouco da temática da Clarisse Lispector presente do livro Água Viva, fazendo alguns contrapontos, alguns recortes com a obra do Deleuze, que é um filósofo francês contemporâneo.

Então, o que eu preparei para falar hoje a vocês, embora não seja a temática da minha pesquisa de conclusão de graduação, é um pouco em cima desses autores.

 

Um outro autor que também eu recortei no universo do caos, dessa esfera caótica que gostamos de falar tanto na contemporaneidade, além de Deleuze e Clarisse Lispector, usei Laymert Garcia dos Santos, um texto que descreve sobre Deleuze e Guattari.

 

O que eu preparei aqui não visa encerrar o conceito sobre a paixão do amor. Eu tentei refletir, elencar questões a respeito do amor e da felicidade.

Voltando no que eu já tinha dito, eu não pretendo dar um conceito de um filósofo sobre o amor. Até porque eu acho que o papel da Filosofia é realmente de abrir reflexões, que as reflexões possam ser autônomas de conceitos ensinados. Então, viabilizei meu texto neste sentido. E como eu achei que se eu fosse discorrer esse tema na hora, no momento eu ia demorar um pouco para organizar minha narrativa, então eu achei melhor e menos cansativo que eu fizesse a leitura daquilo que eu preparei e depois abrimos para questões e reflexões. O texto é uma forma de organizar o pensamento, eu dei um nome para isso. A minha fala se intitula: A superficialidade de perder-se no outro:

 

Certa vez ouvi dizer que amar, que se apaixonar, era perder-se no outro. Confesso que num primeiro momento achei tal afirmativa fabulosa e de uma beleza profunda.

Que mágico seria encontrar alguém e a partir daí sentir o transbordar de um sentimento completamente arrebatador, sentir-me confortável quando não fosse mais capaz de me perceber diante do outro.

Que espécie de transbordamento eu poderia sentir quando tivesse diante de tal desorientação, quando me perdesse no outro?

Eu precisaria estar preparada para encontrar alguém que fosse capaz de me fazer sentir algo tão forte, que me fizesse estar completamente à deriva? Ou, distraidamente, eu estaria andando pela rua e com o súbito esbarrar de um especial desconhecido encontraria o amor, a paixão arrebatadora?

Amar é perder-se no outro! Eu quis sair às ruas e contar a todos a incrível descoberta que poderia me levar, e levar a qualquer um, à felicidade: amar é perder-se no outro!

Amor e felicidade sempre me pareceram tão imbricados um no outro, tão semelhantes, que por vezes os tratava como sendo a mesma coisa, conferia identidades a eles sem jamais ter pensado mais concisamente sobre seus significados. Eu queria experimentar uma sensação, um sentimento, que fosse capaz de imprimir num outro alguém a minha presença e que com isso eu fosse capaz de ter sempre esse alguém para mim. Que coisa mais confusa eu estava em busca, me perder no outro e tê-lo para sempre comigo.

O que eu, de fato, queria experimentar, a desorientação de um encontro arrebatador, ou experimentar a posse definitiva do outro que me amasse e me fizesse amar?

A afirmativa que eu ouvi sobre o amor foi tão coerente com o cotidiano comum, com as imagens de amores ideais propagadas pelas grandes mídias - televisão e suas novelas, cinema e seus filmes românticos, canções e suas letras e melodias inebriantes sobre apaixonar-se - que minha busca por esse relacionamento perfeito tinha de começar imediatamente.

Coerentemente, estava instituído para mim o modelo de amor ideal: o encontro que faria perder-me.

Tudo estava tranquilamente definido para mim. Harmoniosamente estava tudo aclarado, eu só precisava encontrar o alguém capaz do feito de me conduzir à realização do amor e da vida em comum. Eu só precisava encontrá-lo para me perder. Existia uma forma prévia para o amor e isso a afirmativa que eu ouvi sobre ele me garantia.

Passada a impressão inicial, abri a afirmativa sobre o amor à reflexão do que, de fato, eu poderia entender sobre ela. O que "amar é perder-se no outro" poderia realmente significar?

Pareceu-me estar pressuposto na idéia do outro, presente na afirmativa "amar é perder-se no outro", um eu. Um eu que toda minha primeira impressão sobre o tema "amor" havia suplantado, havia ignorado. Perder-se no outro poderia significar que o eu perderia sua força, sua vitalidade, na vivência do amor.

Passada minha primeira impressão, mais envolta na minha reflexão, percebi que "perder-se no outro" poderia não significar viver o amor. Poderia ser um comportamento meramente repetitivo de tudo o que estamos acostumados a receber e reproduzir da cotidianidade banal e frágil que nos cerca.

Não foi difícil e não demorou muito para que eu percebesse que havia um hiato na afirmativa que eu ouvira sobre o amor e amar: faltava o eu do amor.

Não encontrei empecilho em perceber, exatamente porque no contexto em que se vive hoje, que cada vez mais se exalta um vazio diante da sociedade, o eu ganha notoriedade. É cada vez mais comum ouvirmos falar que a sociedade está ensimesmada, o discurso é cada vez mais voltado para a satisfação do eu, do individual.

Que contradição, então, eu me deparei. Como amar poderia significar perder-se no outro se a sociedade atual está tão enredada num discurso que privilegia a satisfação do eu? Onde estaria o outro no meu processo de satisfação? 

Por que eu, imersa em tal sociedade, me contentei, me satisfiz, tão prontamente com a definição de amor e amar, sem ouvir a palavra eu no discurso?

Deleuze, em seu texto instintos e instituições, presente no livro A ilha deserta, publicado pela editora Iluminuras, em 2006, diz que o termo instituição, juntamente com o termo instinto, são impregnados para designar procedimentos de satisfação, diz ainda que, o organismo às vezes, reagindo por natureza a estímulos externos, retira do mundo exterior os elementos de satisfação de suas tendências e necessidades. Quando o sujeito institui um mundo original entre suas tendências e ao mundo exterior a si, ele elabora meios artificiais para sua satisfação.

Tenho a necessidade de amar, me relaciono com a afirmativa exterior a mim, que diz que devo perder-me no outro para que minha necessidade se concretize - se satisfaça.

Talvez, então, amar reivindique para si algo mais que apenas conformar-se com o já previamente instituído. Talvez amar deva revelar a verdadeira relação do eu e do outro, do sujeito e do exterior. Talvez amar seja extrapolar a instituição que contempla o encontro de duas pessoas com o casamento para satisfazer apenas o instinto de sexualidade.

Talvez amar seja não perder-se no outro apenas, seja sentir junto com o outro, seja encontrar-se no outro, seja ser o outro sem deixar de ser o eu, seja ser o eu sem deixar de ser o outro.

Percebo, quando leio o texto de Deleuze, que, se estabeleço o amor na síntese entre as minhas tendências pessoais e o outro, que é exterior a mim, reivindico e elaboro uma alternativa artificial para vivê-lo. Separo minha realidade em dois âmbitos - o eu e o outro -, perdendo-me no outro, anulando assim, a experiência dele em mim, não sou capaz de perceber minha total dimensão, minha real ocupação em seu ambiente interior. Eu me perdi no outro, não consigo enxergar o meu momento de interseção com ele, não consigo perceber a movimentação que faço em sua interioridade.

Penso que o contexto que vivemos hoje está constituído num panorama fluido, tudo está em constante movimentação. Nós e nossas impressões acompanham esse fluxo. Portanto, quando a impressão que tive sobre a concepção de amor que ouvi um dia, que o definia e que me oferecia uma base supostamente imóvel para compreendê-lo, que me assegurava que seria fácil vivê-lo a partir da minha perda no outro, quando essa impressão se desvaneceu, eu percebi que amar é viver intensamente as instâncias eu e outro que nos constituem.

Quando leio o que Deleuze e Guattari escreveram no primeiro parágrafo do texto sobre o rizoma, em Mil platôs, volume 1, "...cada um de nós era vários, já era muita gente. Utilizamos tudo o que nos aproximava, o mais próximo e o mais distante..."(DELEUZE; GUATTARI, 1995. p.11), tudo isso para explicar o encontro do eu e do outro para a efetivação, a produção, de uma obra em conjunto, consigo perceber o processo de despersonalização que o amor pode causar em nossas vidas. Penso que, quando há o encontro entre nossas tendências de satisfação e a dissolução dos limites do eu e do outro, do sujeito e do mundo exterior, eu talvez não esteja constituindo, ou elaborando, meios artificiais para viver o amor.

Diluir as fronteiras, ser eu e ser outro simultaneamente, intensifica nossa vivência do amor. Diluídos no amor nossos desejos agem por si, ganham força, não se empalidecem como quando se espera deles ação a partir de nossa perda no outro. A este respeito é interessante o que escreve Laymert Garcia dos Santos no texto Leitura de Deleuze e Guattari, em seu livro Tempo de ensaio, Cia das Letras, de 1989:

"(...) o desejo não é o desejo do desejo do Outro, que o desejo não adquire consistência a partir da carência, daquilo que falta. A música de Caetano Veloso, Menino do Rio, enuncia claramente o que para Deleuze e Guatari faz a nossa miséria, a nossa fraqueza. (...) "eu desejo o teu desejo", é porque não há força para desejar, é porque o seu próprio desejo está fissurado (...) Deleuze e Guattari descobriram que não era assim que o desejo funcionava (...) o desejo é o real (...) porque o desejo é engate, como eles dizem é fluxo e corte de fluxo, porque o desejo não carece de nada, não precisa de algo especial vindo do exterior já que é sempre em relação com o exterior, a vibração produzida no contato com o exterior." (SANTOS, 1989, p.67-68)

Encontrar o amor sob essas bases líquidas, móveis, autônomas, como o desejo, nos auxilia na compreensão da vida como um todo. Somos afetados por ela a todo instante, somos intensificados por ela para viver o amor.

Talvez para pensar e falar sobre o amor não devêssemos reproduzir modelos fixos e estabelecidos tão prontamente quanto "amar é perder-se no outro". Essa talvez seja apenas uma primeira aproximação sobre ele, ainda superficial.

Contudo, ainda não sei dizer o que é o amor e nem mesmo se posso dizer que amor e felicidade possuem identidade, se são semelhantes, se são uma só coisa. Mas agora me pergunto: o que se deseja quando se pensa e se fala sobre amor e felicidade? O que se deve almejar, significar esses dois conceitos, ou senti-los, experenciá-los?

Eu não sei. Talvez porque o amor e a felicidade se pareçam com o que Clarice Lispector, em seu livro Água viva, diz querer na música, no que escreve e no que pinta: "traços geométricos que se cruzam no ar e formam uma desarmonia"(LISPECTOR, 1998, p. 60). Talvez porque o amor e a felicidade sejam essa desarmonia, que se entende e que se sente, que eles intensificam tanto a nossa existência e nos solicitam, nos convidam a encontros como esses para se falar sobre eles.

Agora que penso mais concisamente sobre eles, acredito que qualquer tipo de definição conceitual sobre o amor e a felicidade deve sempre estar aberta para o vivido, para o intensivo de nossa existência, porque amar e ser feliz não carece de exatidão. Não preciso estar preparada para o encontro com o outro, nem mesmo estar distraída. Não preciso esperar alguém especial para amar, para ser feliz, porque o amor se mostra cada vez mais como intensidade de vida e diluindo as fronteiras que nos separam do outro e do mundo a nossa volta.

Usando as palavras de Clarice Lispector, eu acredito poder dizer que o amor se mostra cada vez mais como "um coração batendo no mundo" (LISPECTOR, 1998, p.33) e que para pensá-lo devemos cada vez mais estar abertos, desvinculando modelos fixos, referências estabelecidas. Devemos cada vez mais nos desapegar da lógica vendida pelas fantasias do amor convencional das novelas. Devemos estar em contato direto com a vida, abertos para a intensidade que nos cruza, que nos transborda, para a felicidade e para o amor. Amor sempre em sentido amplo.

 

E foi isso que eu pensei sobre o amor quando recebi o convite da Mônica para trazer hoje e abrir para discussões...

 

Eu gostaria de tocar num ponto atual onde se fala muito do vazio e a superficialidade envolta dessa habitação, num vazio de referências, num vazio de valores.

Acredito que o vazio não deva ser encarado como um abismo, um fim, um vazio talvez deva ser encarado como um agregador, um espaço aberto para criatividade.

Acredito que estejamos imersos num vazio, mas que talvez não seja um vazio de conteúdo.

 

Como se diz ah... é paixão, é superficial porque dá com o momento, é efêmera, é cara.

É um vazio talvez que abra a reflexão para formas pré-estabelecidas. Por isso, quando eu escrevi sobre isso, eu imagino que, mais que falar sobre o amor, sobre as bases fixas, que muitos autores já falaram, acho que mais que dever conter, se é um mergulho vazio, que seja um mergulho no vazio de formas pré-estabelecidas, mas não de conteúdo, que ele seja um fator que impulsiona criatividades novas do amor e relações, nesse sentido.

Enfim, é mais ou menos como eu entendi que poderia ser o amor, mas não acho um mistério. Era essa a minha proposta inicial.

 

Mônica Aiubi - Quando fizemos o convite para discutir esse tema, ela colocou como ponto de partida um texto de Lucio Packter sobre relacionamentos conturbados.

Ele aborda nesse texto a vida dos filósofos e estabelece um paralelo entre aquilo que os filósofos pensaram e o que eles viveram nas suas biografias. Principalmente tratando-se de relacionamentos, ele fala, por exemplo, de um Sócrates ou de um relacionamento afetivo de Sócrates, de um Nietzsche de uma vivência conturbada de seus relacionamentos afetivos e assim sucessivamente.

A questão que me parece indicada é em que medida nós conseguimos viver aquilo que nós pensamos, aquilo que nós defendemos, aquilo que nós dizemos?

Se o caso em questão é o de encontrarmos uma espécie de coerência em virtude do que pensamos, que nós vivemos, ou se isso é impossível como algumas pessoas defendem, ou se isso poderia estar em aberto e assim se diz num determinado momento da vida: 'olha estão me criticando por mudar de idéia! Ainda bem que eu posso mudar de idéia e já que eu posso mudar de idéia, eu considero sempre a última idéia, meu último escrito'.

E muitos filósofos, no decorrer de sua vida, tiveram essa oportunidade de viver histórias, ou conceitos, a partir de suas vivências e conforme nós vemos esses relacionamentos e as idéias nós vamos revivendo.

E a proposta da Josy é um pouco isso, de manter esse fluxo, de manter esse movimento, e aí eu pergunto para você. Como que você vê essa violação entre pensar dessa forma, como você está colocando aqui, de colocar em questionamento esses padrões de relacionamento que estão aí em nossa sociedade e deixar isso em aberto, para as novas formas, para as pessoas descobrirem as próprias formas.  Como você relaciona isso a vida? Você consegue fazer isso?

 

 

JOSY - Primeiro a temática parecia a mesma do contexto. Vive-se o que se pensa, como eu posso pensar sem vida?  Então, eu acho que pensamento e vida estão intimamente ligados e quando se fala dessa abertura de novas formas de relacionamento, comenta-se uma espécie de pensamento que está na vida. Eu não sigo um pensamento de vida. Então, a partir do momento que eu penso, aquilo causa uma intensidade em mim, alguma movimentação, aliás, se  estamos num curso constante, um imóvel seria uma aparência, digamos assim.

Creio que se entregou nessa corrente, nesse fluxo de pensamento, por que mudou, por que o pensamento não pode ser considerado um imobilizador de portas.

Entendo esse pensamento que você me coloca como uma forma de elaboração teórica.

Eu adorei uma forma de um relacionamento perfeito.  Duas pessoas se encontram, vivem juntas para o resto da vida, essa é a fórmula de um relacionamento perfeito. Eu estanquei uma forma de pensamento da mesma forma que o pensamento, isso me parece um pouco contraditório com a vida. Por que a vida vai, a vida flui, e o pensamento vai junto com ela. Estancar isso, eu acho muito complicado. Por isso, aqui na minha fala, tentei levantar um pouco isso, de trazer o pensamento para a vida, trazer o amor para a vida, tudo para o existencial, para o vivido mesmo.

Elabora-se muitas tentativas de estancar o curso de todas as coisas que acontecem, talvez por que isso ameace. Ameace mesmo cada vez que você tropeça numa novidade e o outro assusta a princípio. Por isso que talvez eu acho que essa elaboração teórica que visa imobilizar, ou o estancar o movimento vem como um "ai agora estou salva, encontrei uma base pra pousar", quando temos que seguir junto. Eu acho que novas formas de relacionamento não visam essa, digamos que, um oba-oba generalizado.

Tem que ser você e o outro nessa troca constante. Sempre eu acho que termina esse raciocínio, consciente da sua postura, da postura do outro para vivenciar essa experiência, eu acho que é mais ou menos, eu acho que pensamento de vida não se desvinculam.

 

 

MÔNICA - Nós falamos que você iria apresentar essas idéias de como você entende a Filosofia hoje, e considerando esse ponto em relação ao pensamento enfim, como você considera, como você entende a Filosofia hoje?

 

JOSY - Se eu dissesse 'é isso', eu estancaria o movimento do que eu estava entendendo por Filosofia. Eu acho que a Filosofia deve ser constituída, deve ser tocada da forma que ela nos toca. As coisas estão em relações, da formas como as coisas se relacionam comigo eu preciso ter um olhar para aquilo de uma forma que vise o movimento da coisa a se relacionar, entende? Então, eu acredito que a Filosofia deve partir de um princípio de retração, aquilo que nos toca, aquilo que nos faz pensar, que nos faz intensificar a vida.

Agora, se você me pergunta o que é Filosofia, eu iria te dizer que não sei, porque eu não gostaria de definir o que é Filosofia.

 

MÔNICA - Eu perguntei essas coisas para a Josy por que... eu sou a Mônica,  eu disse que falaria da Filosofia Clínica, e muitas pessoas procuram consultório por questões relacionadas à paixão, relacionamentos conturbados, relacionamentos afetivos e, em muitos casos, dizem respeito a isso que ela abordou aqui, de termos modelos: relacionamento tem que ser assim, se não é assim então tem alguma coisa errada com meu relacionamento. Até aí está tudo bem, pois se vive esse relacionamento.

Você contextualiza, a pessoa gosta daquilo, mas aquele tipo de relação, que é mais uma cobrança externa, uma pressão ou está tudo direitinho de acordo com o modelo, mas ainda não se sente bem. É terrível, e é sofrido. Quem olha de fora acha que é um relacionamento perfeito, mas que é isso? Tem espaço de pensar sem um modelo pronto.

Coloco umas questões para vocês, vamos falar um pouquinho sobre isso: Sobre como nós vivemos os nossos relacionamentos e do que nós pensamos dos nossos relacionamentos.

 

 

YOSEF - Eu fico grato à Josy por ela trazer essa historia do vazio, esse momento que nós estamos vivendo com muitas revistas, muitos livros, onde muita gente lamenta a queda dos valores tradicionais, a quebra dos modelos tradicionais, e de outro lado a história da humanidade sempre procurou exatamente chegar a isto, ou seja, que os valores são estáticos ou se os movêssemos, fossem líquidos, fossem diluídos, fossem fluidos e que não pudessem mais ser absolutos.

A situação que esse modelo (claro, a mídia vive de estereótipos, de modelos) e esse conflito entre o que a mídia propõe na novela (modelo da mulher bonita ou modelo da felicidade), é exatamente a postura da superficialidade. Superficialidade propõe o modelo de felicidade ou modelo de amor.

Comecemos a perceber que tudo bem, nunca houve uma explicação do amor, pois, exatamente essas coisas essências nunca são explicadas e sim vividas.

Segundo, existe uma série de equívocos no nosso pensar banal e quando fala da paixão ou de estar apaixonado, quero lembrar que, em muitas regiões do país, quando se diz: 'fulano morreu', ou 'eu estou apaixonado', significa que eu me perdi do mundo.

É exatamente o tema que nós estamos trazendo. Agradeço que você tenha trazido esta questão.

 

JOSY - Era exatamente isso que eu queria trazer mesmo, uma reflexão, não uma definição.

Os meios são os pontos que as coisas não tinham velocidade. Tem um texto de Deleuze que eu acho que é bem próprio, onde ele fala sobre o que é um meio, que as coisas adquirem velocidade. Então que seja um meio de reflexão, uma maneira de se pensar.

O que eu vivo hoje? É uma paixão? É um modelo que eu comprei para mim e eu acho bacana?

É a forma que eu entendo de abrir a reflexão e o pensamento para se falar sobre como é o amor, mas é incontínuo, não é definitivo, entende?

 

PLATÉIA - Eu tenho dois questionamentos:

Primeiro, não há uma confusão, inclusive nos dias de hoje, do que seja paixão e amor? 

Porque muitas vezes as pessoas falam de amor, mas que na realidade parece que está sendo uma paixão. E dizem alguns especialistas que uma paixão pode durar de seis meses a dois anos. Aí vem outro e fala que uma paixão que pode durar até uma semana, duas semanas.

Tem exemplos na mídia de pessoas que dizem: 'estou amando!' Em um mês já terminou o amor...

 

JOSY - Vou começar do começo. Você disse da paixão e do amor, você cindiu seu discurso ai, você disse assim, você não disse, mas você disse que a paixão tem data para começar e data para acabar... é o que dizem. São os modelos.

Você já ouviu dizer que quando a paixão acaba, se a paixão acabar, é porque não é amor? Então quer dizer, parece, que a paixão te leva para o amor. É bem confuso esse discurso que dualiza a questão sentir, intensificar a vida em relação ao outro e com as coisas que nos tocam.

Eu falei do amor exatamente porque eu percebia essa coisa quando se fala em paixão, porque parece que a paixão é muito superficial, que ela acaba e se ela não tem esse prolongamento, não existe amor.

É melhor falar do amor porque o amor abrange todas essas formas relacionais, nem que seja o encontro mais efêmero do mundo que dure um segundo, um ano ou uma semana, enfim, mas aquilo vai provocar alguma coisa em você, aquilo não vai parar naquele minuto, naquele instante que aconteceu. E se acabar depois, talvez ele não acabe de fato, talvez ele se transforme em outra coisa, se é amor eu não sei dizer.

Mas enfim, eu acho um pouco forçado dividir o discurso de término de paixão, entende!

São sentimentos, são intensificações da vida. Por que parece que a paixão fica pejorativa perto do amor, parece que é uma coisa que está num degrau abaixo, enquanto que são experiências, são trocas, são relações.

 

YOSEF - Eu queria provocar. Eu acredito que a paixão é eterna, ela nunca acaba, não existe essa coisa de acabar, porque as pessoas vivem em função de uma paixão, que é no inconsciente.

O que se mantém é uma caricatura de paixão e essa acaba.

As caricaturas, os estereótipos, aquilo que eu projeto em você, se eu digo 'eu estou apaixonado', eu me perco em você porque eu projeto em você algo que eu espero e que é algo que nasce dessa paixão intuitiva pela vida.

Então a minha provocação em si, a paixão nunca se acaba, ela leva ao aprendizado do amor.

O amor já é de uma natureza diferente, porque o amor te leva a essa possibilidade de realmente começar torcer pelo outro, fazer com que o outro seja ele cada vez mais.

Nesse sentido eu invento, não há um dualismo, há aspectos diferentes.

 

MÔNICA - Apesar de questionarmos essas coisas, essas falas: 'a paixão dura tanto', isso acaba sendo tão forte para algumas pessoas que chegam no consultório problematizando isso.

A paixão dura dois anos, já passaram-se dois anos e eu continuo apaixonada. Há algum problema... (risos)

Ou ao contrário disso, já vai acabar e agora o que é que eu vou fazer se vai acabar?

Ta dando o prazo de validade.

Se observa, as vezes, que as posturas que nós temos diante das nossas próprias vivências levam a determinados resultados.

Muitas vezes idéias como essas começam a fazer com que a pessoa chegue a identificar o que eu posso pegar aqui para acabar com isso porque está na hora de acabar.

Mas se paixão, tem fatos que é ser afetado por, ser tomado por.

Nós não podemos estar afetados, no sentido de afeto, no sentido de afetação por muito tempo? Por pouco tempo?

Que amor tão difícil, né? Definir é tão difícil?

Conseguir saber que o outro é diferente, e é legítimo ser diferente, é isso que ele chama de amor.

Mas ai já não é um amor apenas num tipo de relacionamento consigo, é respeitar a diferença de uma pessoa querida, amigo ou da pessoa pela qual eu me apaixonei, mas de todos os outros, como se cada um de nós fôssemos um ingresso completamente diferente, apesar das nossas proximidades, das nossas semelhanças, esse respeito profundo a ser único.

E legitimidade ser outro, não querer que o outro seja como eu. Isso é um problema muito sério nos relacionamentos em que os tornam superficiais. Por que assim eu em pauto os meus problemas e quero chegar naquele modelo, ou eu quero que o outro viva o meu modelo, ou eu quero me entreter no outro, mas foi mesmo.

Eu torno o outro um espelho e não vejo o outro, não vejo a legitimidade do outro. Eu vejo o que há de em mim no outro, e qualquer coisa que se reflete diferente disso eu nego.

E aí como eu reduzo? Pois fica tão tênue essa diferença do ser adotado e dele.

Mas não sei se agente pode definir.

 

PLATÉIA - Meu nome é Francisco, fiz meu doutorado em Filosofia, fiz mestrado em Comunicação. Já que ela falou sobre essa questão, que Filosofia é falar aquilo que nos falta... Eu acho que o professor de Filosofia só deve ensinar aquilo que lhe toca, ou seja, o alvo da Filosofia nada mais é que uma reflexão a partir do que lhe toca, porque se não ele não faz Filosofia.

E essa seria a diferença da Filosofia para as outras disciplinas, eu não preciso estar muito tocado pela Matemática, é só usar um bom método que todo muito vai aprender.

Então quando o professor de Filosofia fala daquilo que não lhe toca, não toca ninguém.

Mas eu vou começar aqui com uma poesia que eu fiz que eu só lembro essa parte que eu acho que quem fala melhor de amor é a arte.

Eu também componho e escrevo poesia porque se agente usa a Ciência para dominar o mundo, usamos a Filosofia para explicar e a Arte para viver!

 

"Os vermes comerão os teus lindos olhos no silêncio do banquete da decomposição mas nunca hão de devorar o brilho do teu olhar naquela linda satilha" (essa eu fiz quando eu estava apaixonado)

 

Paixão pra mim tem muito a ver com perda. Muitas das pessoas que eu amei morreram. A começar do meu pai, que eu não conheci e minha mãe quando eu tinha 19 anos, os meus irmãos que perdi.

Amor é sempre uma perda, pois, eu me apaixonava e eu perdia. Amar é... não amo as vezes porque a gente tem medo de perder. Vamos contra o sentir daquilo que nos toca, entrando na velha questão: falar de amor é falar de morte.

 A superficialidade no mundo de hoje é isso. O amor é bonito enquanto está tudo sorrindo. Um detalhe que no finalzinho todo mundo guarda um pouquinho de maquiagem, até os enterros são bonitos.

Eu tenho esta questão de falar de amor, do sentido da vida, que o amor dá. É ainda esse absurdo de que vamos morrer, de que um dia quem amamos vai morrer. Isso é real!

Não é uma coisa assim, 'ah ele pensa assim!' A morte é uma coisa que colocam um fim em tudo. E logo se acaba, se não é em dois anos... mas se acaba um dia.

Desculpa a dramaticidade! (risos)

 

 

JOSY - Eu não sei se o amor está tão relacionado a perdas assim. Porque, onde está localizado o amor? Na pessoa que eu amava ou em mim? Assim é inevitável, é óbvio, todo mundo vai morrer, essa é uma certeza que ninguém vai conseguir por enquanto abalar.

Não sei se o amor acaba, acredito ser uma transformação, um contínuo.

Estou refletindo, articulando o que você falou. Se eu perdi a pessoa o amor acabou? A pessoa morreu e o amor acabou? Então penso no que eu ouvi na primeira vez sobre a definição do amor. Amar é perder-se no outro, eu me perdi no outro e já não tinha mais dimensão do que eu sentia, do que era essa troca e quando o outro se foi, acabou eu me perdi.

 

PLATÉIA - Porque se acabasse seria ótimo. Por isso que eu falo: o brilho do amor vai acabar com o brilho do olhar... esse que é o problema.

 

JOSY - Essa dualidade, um do outro que permanece em mim, que é meio confusa.

 

YOSEF- É aí que a gente tem que se submeter à Psicanálise quando ela estabelece a relação viva entre elas. Entre o amor, a vida e a morte, e ao outro. Falou-se da arte, justamente a arte tem esse papel de fazer a metamorfose dos fenômenos. Então, é uma metamorfose continua. Isso a ideologia já estabeleceu, a Química, e mesmo na Psicologia.

Dizemos então que se perde a um absoluto, o que se ganha é uma metamorfose, perde assim o estereótipo, toma assim uma atitude intuitiva.

Essa relação é que muitas vezes dá a dor, porque nos apegamos a um formato ou algo acabado. Essa me parece a questão que se traz, exatamente superar a superficialidade é aprender também a conviver com essa dinâmica. Quer dizer, viver com a idéia de metamorfose contínua. Como diria Raul Seixas, viver a metamorfose ambulante.

 

MÔNICA -  Sabe que eu recebi num caderno especial, um artigo sobre um professor, bem próprio, e tinha uma frase dele, que dizia assim: 'Entre o dia do meu nascimento e o dia da minha morte, todos os dias são meus'.

O que nós fazemos com esses dias que são nossos? Quando nós falamos dessa questão de localização... onde está o amor? Ele está em mim ou ele está no outro? Como eu estou, eu perdi-me no outro ou a parte do outro que está em mim? Se nós observarmos a nós mesmos quanto de outros e de muitos outros? Quanto deles está em nós?

A parte constitutiva que nós somos não dá para tirar, porque ela é fruto, e o quanto de nós ficou em outros também? Porque nós nem sabemos. As vezes não só em ralações de amor mas em várias formas de relação, talvez nós tenhamos uma certa dificuldade, porque nós tentamos cobrar as coisas de maneira estática. Será que dá pra perceber as coisas assim?

Francisco, me parece que este outro que vai e que morre também fica.

Fica em cada um de nós. Não fica mais a presença física do outro, mas você tem outras formas de presença.

Há pessoas que se relacionam de uma forma muito mais intensa com essas presenças que não estão vivas, mas que fazem parte de sua vida, que outros que outros que convivem ao seu lado, de tão forte e tão intenso que é isso. Talvez seja mais essas intensidades que nós podemos chamar de paixão, de amor e, e sabendo que não são os nossos objetos, é estranho chamar assim, mas os nossos objetos de amor e de paixão.

Na verdade eles não são objetos, são seres que se relacionam conosco, as vezes até atividades, as vezes coisas que deixam simplesmente de existir, pessoas...

Mas é isso que nós vivemos, é isso que nos constitui. Então, há aí sim toda essa relação e eu os conheço bem. O que nós fazemos com isso? Como nós construímos algo que, em nós, de certa maneira, virá a nós mesmo até aqui? Como nós ficamos quando nós nos deparamos com a situação de morte de alguém?

 

PLATÉIA - Na superficialidade do mundo de hoje, eu não agüento mais ouvir música de amor. Vejamos aí, passa rock, passa samba, passa tudo.

Eu já não agüento mais, é uma superficialidade tremenda. Eu acho que se fala muito de amor, mas talvez não se viva e aí eu volto também àquela música da Rita Lee: Sexo é Amor. Parece que fica tudo ali. Sexo, amor. Eu falo assim hoje porque eu adoro bunda.  Mas eu já não agüento mais olhar para bunda de jornal, só se vê bunda, mulher é uma "bunda". E isso é triste porque a criançada, eu dou aula para adolescente, eles sentem isso, 'eu vou catar', 'eu vou ficar', 'eu vou catar', 'eu vou ficar'. E o mundo está cada vez mais vazio e mais violento. Que bom que a gente sentia... as poesias, as palavras, recebíamos uma carta de alguém que gostávamos, alguém que amávamos. Eu tenho cartas guardadas até hoje. E hoje você briga com a pessoa aí vai lá e deleta!

 

JOSY - Mas será que deleta mesmo?

 

PLATÉIA - Eu tenho a cartinha que eu tenho guardada até hoje da minha mãe, do Rio de Janeiro, eu cheiro, eu sinto saudades da minha mãe... É diferente.

 

PLATÉIA - Fiquei pensando nessa questão do encontro, do encontrar-se e aí devido a superficialidade do vazio, e da nossa atualidade da questão do movimento, da questão da arte. Fiquei pensando aqui enquanto ouvia, e agora chego à questão se as relações atuais, as gerações são superficiais?.

Eu acho que eles vivem esse momento como algo inédito, na relação tempo, por exemplo.

Em outras gerações passadas também tínhamos uma perspectiva, tínhamos mais encontro, o tempo passava, nos encontrávamos e ficávamos com essa sensação, que o amor é paixão, não que era amor mais. Se olharmos assim, percebemos que no ato do encontro já é o ato da perda. Com essa coisa de ficar, eu não sei se isso é ruim, acho que pode ser muito bom, porque rapidamente se faz a elaboração desse processo todo que nos outros momentos demorava mais.

Hoje em dia se faz muito rápido, e eu acho isso muito interessante, não sei se isso é um vazio se isso é uma superficialidade. Acho que é uma outra relação, experiência...

 

PLATÉIA - Eu gostaria de colocar duas coisas:

Uma sobre a superficialidade sob o meu ponto de vista e outro sobre o amor, quando ele fala da questão da perda. De forma nenhuma eu concordo de relacionar o amor com a morte. É muito duro perder alguém que você ama, eu já perdi, eu sei que dor que é essa. Mas esse amor, ele está em mim, por amor a mim e amor a essa pessoa que a vida continua.

Esse amor me impulsiona a continuar vivendo apesar das circunstâncias. E incontáveis outras coisas,... canalizar esse amor que transforma.

A outra questão da superficialidade que ele colocou e que eu percebo hoje em dia é assim: as pessoas separadas teriam medo, não sei se eu poderia usar essa palavra, mas é a falta de vontade de conhecer o outro, de conhecer esse universo, essa pessoa que está à sua frente.

Como é tudo muito rápido, acredito que as pessoas querem conhecer tudo ao mesmo tempo, mais aí não é possível. Porque para você conhecer alguém é preciso tempo, é preciso querer.

Cada um de nós somos um universo. Você vê tanta gente aqui, cada um está pensando de uma forma, cada um absorvendo as informações de uma forma e se eu quiser conhecer alguém eu vou ter que me aproximar desse alguém, eu vou ter que me dedicar... Posso não gostar, tudo bem, mas eu vou ter que partir pra isso.

E hoje a gente vê a superficialidade, pelo menos para mim é isso, a pessoa olha para você e já faz toda a leitura. 'Ah é feio, é ruim, não me interessa, não quero' e pronto.

Acaba por aí então o encontro, já é a ruptura. Porque não te dá tempo de te ver, de te olhar de verdade e ver quem é esse ser humano que está à sua frente.

Como eu disse, você pode se encantar ou pode chegar daqui há um mês, um ano, um dia, sei lá, ou no segundo passeio, 'nossa!, Não tem nada a ver essa pessoa'. Pronto, mas aí eu me dou essa oportunidade de conhecer essa pessoa...

 

JOSY - Eu estava relacionando essa questão da superficialidade, como acontece a presença da gente na sociedade. Não pelas relações propriamente ditas, mas muito mais pelo consumo e pelo poder. Pelo consumo e pelo medo. Se eu não posso consumir coisas, então num instante eu sou descartável. E o outro é objeto de consumo para mim.

 

Você tem relações sexuais você não está transando com alguém, você está se masturbando por conta do outro. O outro perde a identidade, perde a existência. E eu fiquei pensando nisso, como a gente vê o amor como uma coisa que mais me protege e a assim eu acabo vendo as relações como aquilo que pode tirar de mim, então eu vou muito mais guiada pelo medo do que realmente pela possibilidade de me aquecer, de me redimensionar.

E você acaba se relacionando com muito mais colada nesses moldes. Então, o meu papel de esposa é chegar e fazer a janta. Mesmo com a vontade de ir ao cinema com as amigas, ela não vai porque o meu papel de esposa é estar lá, porque se não eu vou perder o meu lugar. Então, o quanto a gente aborta a possibilidade de ser ativo, de olhar o outro como outro mesmo e não passar a lápis em cima de molde já feito.

E quem é esse outro? E não impeça esse outro de se questionar, se redescobrir no contato comigo, no contato com o outro, no contato com o mundo, porque você se condena à estanqueidade.

 

JOSY - Uma coisa que a gente está falando dos filósofos... eu li, há um ano, o livro Beauvoir. Não é o livro dela e sim uma biografia dela. E ali é interessante porque pauta, conta um pouco da experiência de tudo. Eu não li o livro inteiro, é muito grande, mas em grande parte do livro ela coloca isso, como ela realizava aquilo, do amor com Sartre, dois filósofos.

Em algum momento me ocorreu esse quebrar o padrão, a dor, porque ela foi uma mulher que quebrou muitos padrões na sua própria experiência amorosa, na sua própria experiência intelectual, ou naquilo que ela articulou em relação à mulher e tudo mais. No entanto, esse livro revela, em alguns momentos, a dor dela por justamente estar vivendo tudo aquilo e talvez mais que dor, a frustração dela também, diante do amor dela pelo Sartre, as impossibilidades daquele amor, e as dificuldades que ela tinha ao encarar cada novo amor, pois Sartre estava sempre presente nessa relação de novo amor. Então, eu acho muito interessante trazer essa imagem dela, uma mulher que fala sobre o discurso da libertação da mulher, do feminismo. E vemos ela ali dilacerada diante de tudo aquilo, do discurso que tomava para si como fala, como situação nova da mulher diante da sociedade, e, no entanto, ela completamente vulnerável, fragilizada, sofrendo, se maltratando, se punindo em todas as suas dificuldades pessoais.

 

 

PLATÉIA - No consenso, popular fala-se muito que amor é cego. Porque... ele é mau caráter, o amor é cego mesmo, não tem jeito. Esse amor chamado cego, como o próprio amor, ele está procurando ou está falando simplesmente, que esse amor que a pessoa está vivendo é incondicional?

 

PLATÉIA - Pois é... e sem contextualizar em cada situação não tem como avaliar.

E o que significa para você, por exemplo, viver um amor cego? Ou dizer diante de uma situação que você vive, o amor é cego?

 

PLATÉIA - Para alguns, o amor não é cego.

 

PLATÉIA - Essa incondicionalidade é uma característica do amor, creio que o amor é uma série de condições. Por que esse amor incondicional?

Talvez o maior estado de notificação que queremos da mãe, do pai, essa incondicionalidade que queremos encontrar no outro que desejamos. Não sei se é incondicional ou não.

 

YOSEF - Mas daí, pegando o seu gancho aqui, eu até queria mostrar que realmente esse fluxo de tantos elementos dissolve e o dissolve esses sofrimentos da Simone de Beauvoir provavelmente é essa passagem entre absolutos e um monte de fluxos. Há pouco tempo, num trabalho com jovens, eu me surpreendi quando eles falaram do second life, que é essa coisa de ter um outro personagem na internet... e, normalmente eu tinha a tendência de achar que o second life é coisa do Diabo. O cara inventa qualquer coisa... Depois os jovens me deram uma leitura que eu não sabia. Eles disseram que é uma brincadeira com personagens em que podemos nos estudar, nos aprender com outras formas, eu não tinha pensado nisso.

Quer dizer, eu não tenho esse fluxo perfeito. Isso é legal, viver esse mundo, essa vitalidade.

 

 

 

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